Há manifestações culturais que não precisam de palco, cachê ou grandes produções para emocionar. Elas sobrevivem porque pertencem ao povo. E, quando isso acontece, a tradição deixa de ser apenas memória para se tornar um ato permanente de resistência cultural.
Foi exatamente isso que aconteceu em Salvador, na Bahia, com a iniciativa Forró na Praça. De forma espontânea, forrozeiros passaram a se reunir em espaços públicos levando apenas seus instrumentos, sua alegria e a vontade de celebrar um dos maiores símbolos da identidade nordestina. Sanfonas, zabumbas, triângulos, pandeiros e vozes se encontram sem protocolos. Não há competição, apenas comunhão.
As imagens registradas pelo amigo forrozeiro Zé Costa mostram muito mais do que pessoas dançando. Revelam uma sociedade que compreende que preservar uma tradição depende da participação popular. É a cultura acontecendo de maneira natural, sem imposições, exatamente como sempre foi o verdadeiro forró.
Recebi essa informação do amigo Alfranque Amaral, apaixonado pesquisador, defensor e divulgador do nosso forró, diretamente de Campina Grande, cidade reconhecida por realizar uma das maiores festas juninas do mundo. Seu relato merece destaque porque evidencia que o amor pelo forró não conhece fronteiras estaduais. A Bahia, mais uma vez, mostra sua força cultural ao criar um movimento que inspira todo o Nordeste.
Em dezembro de 2021, o forró foi reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural do Brasil, um reconhecimento que consolidou oficialmente a importância desse gênero musical para a identidade nacional. A decisão levou em consideração não apenas a música, mas todo o universo cultural que envolve o forró: a dança, os saberes dos mestres, os instrumentos tradicionais, as festas populares e a transmissão desse legado entre gerações.
Esse reconhecimento, entretanto, traz uma responsabilidade. Patrimônio cultural não é algo que se guarda em vitrines ou museus. Ele precisa ser vivido, praticado e compartilhado. Sem pessoas tocando, cantando e dançando, qualquer tradição corre o risco de se transformar apenas em lembrança.
O exemplo de Salvador demonstra que preservar o forró pode ser simples. Basta ocupar uma praça, reunir amigos, afinar a sanfona, marcar o compasso da zabumba e deixar que o triângulo anuncie que a festa começou. O espaço público volta a cumprir sua função social: aproximar pessoas, fortalecer vínculos comunitários e valorizar as expressões populares.
O Nordeste sempre foi um celeiro de grandes mestres do forró. Luiz Gonzaga universalizou a sanfona nordestina. Jackson do Pandeiro revolucionou o ritmo. Dominguinhos deu novas cores ao gênero. Sivuca, Anastácia, Marinês, Elba Ramalho, Flávio José, Jorge de Altinho, Dorgival Dantas e tantos outros mantiveram viva essa herança. Hoje, iniciativas populares como o Forró na Praça mostram que esse legado continua pulsando nas mãos do próprio povo.
Em tempos de redes sociais e entretenimento instantâneo, iniciativas como essa também cumprem um papel educativo. Jovens conhecem instrumentos tradicionais, crianças convivem com músicos experientes e turistas descobrem que o verdadeiro forró vai muito além dos grandes eventos juninos. Trata-se de um patrimônio construído diariamente por quem acredita que cultura também é cidadania.
Que esse exemplo atravesse as divisas da Bahia e inspire outras cidades nordestinas. Quixeramobim, Fortaleza, Campina Grande, Caruaru, Juazeiro do Norte e tantos outros municípios têm tradição suficiente para transformar praças em grandes salões populares, onde o ingresso seja apenas a vontade de celebrar nossa identidade.
O forró não pertence a uma cidade nem a um estado. Ele pertence ao Nordeste e ao Brasil. E sempre que um povo ocupa uma praça para tocar, cantar e dançar espontaneamente, reafirma que nenhuma tradição morre enquanto houver quem a viva com alegria.
Salve o forró. Salve os seus mestres. Salve aqueles que mantêm acesa essa chama que atravessa gerações e continua fazendo do Nordeste um dos maiores patrimônios culturais do mundo.





