O auditor fiscal de Rendas Paulo Sérgio Siqueira do Prado, conhecido como PP, firmou um acordo de colaboração premiada com o Ministério Público de São Paulo no âmbito das investigações que apuram um suposto esquema bilionário de corrupção envolvendo a Secretaria da Fazenda e Planejamento do Estado. De acordo com a apuração, auditores fiscais teriam recebido propina para acelerar a liberação de créditos tributários supostamente superfaturados em benefício de grandes empresas dos setores varejista e atacadista. As informações são do Estadão.
Com a homologação da colaboração, a Justiça determinou a revogação das medidas cautelares que haviam sido impostas ao auditor no início das investigações, incluindo o bloqueio e o sequestro de bens.
Aposentado desde 2024, PP ocupou cargos de destaque na Receita Estadual paulista. Em 2014, foi nomeado inspetor fiscal da Delegacia Regional Tributária da Capital e, posteriormente, assumiu interinamente a chefia da Delegacia Regional Tributária da Capital II durante afastamentos de Marcelo Bergamasco Silva, atual subsecretário da Receita de São Paulo.
Delação preocupa investigadores
Nos bastidores da Secretaria da Fazenda, a colaboração de PP é vista como capaz de ampliar significativamente as investigações, por envolver servidores de alto escalão e detalhes sobre o funcionamento do suposto esquema.
As suspeitas de irregularidades motivaram três grandes operações conduzidas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate aos Delitos Econômicos (Gedec), do Ministério Público: Operação Ícaro, que investigou supostos favorecimentos às redes Ultrafarma e Fast Shop; Operação Mágico de Oz; e Operação Fisco Paralelo, deflagrada em março de 2026. Ao todo, cerca de 40 auditores fiscais passaram a ser investigados, e cinco deles foram demitidos por determinação do secretário da Fazenda e Planejamento, Samuel Kinoshita, em abril deste ano.
Ligação com suspeitos
Antes da Operação Mágico de Oz, PP foi alvo de mandados de busca. Segundo a investigação, ele faria a conexão entre Artur Gomes da Silva Neto, conhecido como “King”, apontado como mentor do esquema e atualmente preso, e Alberto Toshio Murakami, apelidado de “Americano”, que está foragido nos Estados Unidos e integra a lista de difusão vermelha da Interpol.
King chegou a negociar um acordo de colaboração, apresentando 33 anexos com informações, mas as tratativas não avançaram porque, segundo o Ministério Público, ele teria omitido a existência de um patrimônio em criptomoedas.
Mensagens obtidas pelos investigadores indicam que, em abril de 2021, “Americano” comunicou a “King” sobre a necessidade de emitir uma Ordem de Serviço Fiscal relacionada à Ultrafarma. As conversas apontam que PP teria sido acionado para providenciar a emissão das ordens fiscais destinadas às inscrições estaduais da empresa, enquanto os envolvidos discutiam medidas para agilizar processos ligados à recuperação de créditos de ICMS.
Outro trecho da investigação relata que, ainda em 2021, “King” e “Americano” conversaram sobre a atuação de PP e de outro auditor para direcionar a fiscalização de uma tradicional rede varejista do setor de móveis e decoração, que encerrou suas atividades no ano seguinte.
Encontros com contadora
A análise de aparelhos celulares apreendidos durante a Operação Ícaro também revelou que PP participou de reuniões com Maria Hermínia de Jesus Santa Clara, conhecida como “Nina”, apontada pelo Ministério Público como responsável pela parte financeira do esquema.
Segundo a Promotoria, Nina administrava um escritório registrado em nome da mãe de King, utilizado como empresa de fachada para negociar valores com companhias interessadas em obter, de forma acelerada, créditos tributários de ICMS. Em troca, auditores fiscais receberiam elevadas comissões.
Os investigadores destacam ainda que o patrimônio declarado pela mãe de King apresentou crescimento expressivo em poucos anos: de R$ 411 mil em 2021 para R$ 46 milhões em 2022, chegando a cerca de R$ 2 bilhões em 2024. Na época em que frequentava o escritório administrado por Nina, PP exercia a função de delegado regional tributário da Delegacia Regional Tributária da Capital III, no Butantã.
