Romeu Zema, candidato do Novo à Presidência da República, defendeu a concessão de anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023 e voltou a se posicionar contra a vacinação obrigatória de crianças durante entrevista ao Jornal Nacional nessa segunda-feira, 24. As informações são do G1.
Ao tratar dos processos relacionados ao 8 de Janeiro, Zema classificou os julgamentos realizados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) como “nitidamente político”. Para ele, quem participou de atos de vandalismo e depredação deve ser responsabilizado, mas as condenações deveriam ocorrer em um ambiente que, na avaliação do candidato, não tivesse interferência política.
“Eu darei anistia ou, pelo menos, no mínimo, um tribunal que não seja político, um tribunal que seja judicial”, disse.
O candidato também foi questionado sobre a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro. Zema afirmou confiar nas urnas eletrônicas, embora tenha defendido a adoção de uma versão impressa do voto.
“Vale lembrar: eu sou totalmente democrata, fui eleito pela urna eletrônica, confio na urna eletrônica — que poderia ser melhorada se tivesse impresso, mas confio.”
Vacinação de crianças
Outro tema abordado foi a vacinação infantil. Diante de um surto de sarampo registrado em São Paulo, Zema reconheceu que doenças transmissíveis podem representar risco coletivo, mas manteve sua posição contrária à obrigatoriedade da imunização.
O ex-governador afirmou que tomou todas as doses recomendadas contra a Covid-19, disse acreditar na ciência e lembrou que, durante sua gestão em Minas Gerais, incentivou a vacinação de crianças. Para ele, porém, cabe ao governo investir em campanhas de conscientização e ampliar o acesso às vacinas, sem impor a imunização às famílias.
“Eu tomei todas as vacinas da Covid, acredito na ciência, recomendo que tome. Em Minas, eu recomendei que as crianças tomassem”, disse. “Agora, eu não posso permitir que uma família, uma criança seja perseguida porque alguém não tomou a vacina.”
Segurança pública e referência a El Salvador
Na área da segurança, Zema citou novamente a experiência de El Salvador, país que visitou em maio de 2025 para conhecer as medidas adotadas pelo governo de Nayib Bukele.
O candidato afirmou que não concorda com iniciativas como a suspensão de direitos, mas disse considerar positiva a redução dos homicídios e o aumento das prisões registrado no país. Segundo ele, o Brasil poderia adotar políticas mais rigorosas contra criminosos sem ultrapassar os limites previstos na legislação.
Zema também respondeu sobre a queda dos investimentos classificados como informação e inteligência em Minas Gerais, que passaram de R$ 533 milhões para R$ 200 milhões durante seu governo, segundo dados citados na entrevista.
Ele argumentou que parte das despesas pode ter sido registrada em outras rubricas e afirmou que gastos maiores na implantação de sistemas tendem a diminuir depois que a estrutura já está em funcionamento. Zema sustentou ainda que os investimentos gerais em segurança aumentaram durante sua gestão e que o resultado das políticas deveria ser considerado na avaliação.
Violência contra a mulher
Questionado sobre as medidas que adotaria para enfrentar os feminicídios, Zema mencionou a ampliação das delegacias especializadas no atendimento às mulheres e das estruturas de acolhimento para vítimas de violência doméstica.
Entre as propostas apresentadas, citou ainda tornozeleiras eletrônicas com mecanismos capazes de identificar quando o agressor se aproxima a menos de 200 metros da vítima e possibilitar o acionamento automático da polícia.
O candidato também defendeu ações de conscientização no ambiente escolar. “Toda criança deve ser conscientizada de que, caso tenha violência em casa, precisa considerar isso anormal”.
Durante a entrevista, Zema foi confrontado com o aumento dos feminicídios em Minas Gerais em 2020, 2021, 2022, 2023 e 2025, período em que comandava o estado. Em resposta, afirmou que oscilações podem ocorrer de um ano para outro e defendeu que a avaliação seja feita considerando a tendência ao longo de um período maior.
Juros e salário mínimo
Na economia, Zema afirmou que pretende realizar um ajuste fiscal caso seja eleito e disse acreditar que, com as contas públicas organizadas, a taxa básica de juros poderia chegar a 6% ao ano. Atualmente, a Selic está em 14%.
O candidato não explicou, durante a entrevista, quais medidas específicas seriam usadas para alcançar a redução.
“Com um governo sério, com credibilidade, combatendo corrupção e fraudes, essa taxa cai para 6%. Só aí nós vamos ter uma economia de R$ 800 bilhões por ano”.
Sobre o salário mínimo, Zema prometeu garantir pelo menos a correção equivalente à inflação. A possibilidade de aumento real, acima da inflação, segundo ele, dependeria do desempenho da economia.
“Garanto que ninguém vai ter perda”, declarou. “Se tiver inflação, nós daremos toda a inflação. É um absurdo um aposentado não ter a reposição inflacionária ou, pior, ficar sem receber a aposentadoria”.
Dívida de Minas
A situação fiscal de Minas Gerais durante os quase oito anos de governo de Zema também foi colocada em discussão. O candidato foi questionado sobre o crescimento da dívida estadual durante o período.
Ele atribuiu parte desse aumento a problemas fiscais acumulados desde a década de 1990 e aos juros cobrados pelo governo federal. Também afirmou que seu governo não contratou empréstimos nem financiamentos.
Segundo Zema, Minas apresentava déficit de R$ 11 bilhões quando ele assumiu o cargo, em 2018, e registrava superávit de R$ 5 bilhões ao fim de sua gestão.
“Eu paguei R$ 23 bilhões para aposentado que não recebia aposentadoria”, disse. “Eu paguei R$ 13 bilhões para o governo federal, funcionários públicos, e hoje a dívida representa muito menos para a economia de Minas do que representava quando eu assumi.”
Privatizações
Ao falar sobre a venda de empresas públicas, Zema reafirmou que pretende privatizar estatais federais caso chegue à Presidência.
Questionado por não ter conseguido vender a Cemig enquanto governava Minas Gerais, disse que sua administração vendeu 118 empresas e participações. Entre os ativos mencionados estão participações na Light e na Companhia Brasileira de Lítio, além da privatização da Copasa.
Segundo Zema, a legislação mineira exigia o apoio de três quintos da Assembleia Legislativa para determinadas privatizações, o que limitou algumas operações.
“Ficou faltando uma empresa só. Todas as outras foram vendidas. E, lembrando um detalhe importantíssimo durante a minha gestão, a empresa de saneamento de Minas, que é a Copasa, e a empresa de energia de Minas, que é a Cemig valorizaram estrondosos 300%, porque não teve roubalheira, não teve corrupção. Foi uma gestão profissional, valorizando o patrimônio do mineiro, e eu vou fazer o mesmo no Brasil”, disse o candidato.
Previdência
Zema afirmou ainda que não pretende começar um eventual mandato promovendo novo aumento da idade mínima para aposentadoria.
De acordo com ele, futuras alterações nas regras previdenciárias dependeriam de fatores como a evolução da expectativa de vida, o aumento da formalização dos trabalhadores e os resultados de medidas de redução de despesas e combate a fraudes e corrupção.
“A aposentadoria vai depender muito disso. Agora, o brasileiro já trabalha muito. Eu não quero o brasileiro trabalhando mais. Eu quero a renda do brasileiro aumentando”, afirmou Zema.
Escolas de tempo integral
Para a educação, o candidato assumiu o compromisso de multiplicar por dez o número de escolas de tempo integral no país durante os quatro anos de um eventual governo. Segundo ele, o objetivo de longo prazo seria universalizar esse modelo de ensino.
Como referência, Zema citou Minas Gerais e afirmou que o número de escolas estaduais com ensino médio em tempo integral saiu de cerca de 70 no início de seu governo para mais de 800 ao final da gestão.
“Me comprometo, como eu fiz em Minas, dez vezes. Dez vezes”, afirmou.
