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A arte de continuar importando-se

O autor mostra que, com o passar dos anos, aprender a eliminar excessos e relações sem reciprocidade pode ser saudável, mas alerta para o risco de transformar desapego em indiferença

Foto: Pixabay

O texto de Kleber Mineiro reflete sobre o envelhecimento, o amadurecimento e a importância de preservar aquilo que dá sentido à vida. O autor mostra que, com o passar dos anos, aprender a eliminar excessos e relações sem reciprocidade pode ser saudável, mas alerta para o risco de transformar desapego em indiferença. A mensagem central é que envelhecer bem também significa continuar cultivando sonhos, vínculos, curiosidades e pequenos propósitos capazes de manter vivo o interesse pela própria existência.

Com o passar dos anos, a vida vai nos ensinando uma espécie de sabedoria seletiva.

Já não queremos todas as presenças, todas as conversas, todas as urgências. Deixamos de disputar lugares que não nos pertencem, de explicar demais quem somos, de insistir onde não há reciprocidade. Aos poucos, vamos retirando da existência os excessos, os ruídos, as obrigações inúteis.

E isso pode ser uma conquista.

Mas existe uma linha delicada entre simplificar a vida e esvaziá-la.

É preciso cuidado para que o desapego não se transforme em desinteresse; para que a paz não seja apenas ausência de movimento; para que a solitude não evolua silenciosamente para uma indiferença diante de tudo.

Porque envelhecer bem não é deixar de desejar.

É aprender a desejar melhor.

Se, em algum momento, você perceber que nada mais entusiasma, que nenhuma manhã traz expectativa, que as pessoas já não despertam curiosidade, que os sonhos foram abandonados sem substitutos, talvez não seja maturidade. Talvez seja a vida pedindo socorro em voz baixa.

E então será necessário resgatar-se.

Inventar novos motivos.

Aprender alguma coisa. Viajar, ainda que para perto. Voltar a ler. Cultivar amizades. Plantar uma árvore. Apaixonar-se por uma ideia. Escrever. Caminhar. Cuidar de alguém. Permitir-se novamente ser surpreendido.

Não importa tanto o tamanho do propósito. Importa que exista alguma coisa esperando por você no dia seguinte.

A saúde da alma também se alimenta de expectativa.

Ter um motivo para levantar da cama, uma conversa que se deseja ter, um projeto ainda incompleto, alguém para abraçar, alguma beleza para procurar — tudo isso mantém o coração participante da própria existência.

Com o tempo, retire da vida aquilo que pesa.

Mas preserve aquilo que acende.

Porque talvez uma das maiores sabedorias de envelhecer seja esta:

ter cada vez menos coisas sem importância — mas nunca deixar a própria vida sem alguma coisa que importe profundamente.
akam.

Escrito por Kleber Mineiro. 

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