A democracia se fortalece quando os candidatos à Presidência da República são colocados diante de perguntas difíceis e precisam explicar, com clareza, aquilo que pretendem fazer com o país. É por isso que entrevistas como a realizada ontem pela TV Globo com Renan Santos têm um valor que vai muito além da audiência ou dos cortes que rapidamente chegam às redes sociais.
Renan Santos, candidato do Missão, foi entrevistado por Renata Vasconcellos e César Tralli, dentro da série de sabatinas com os presidenciáveis mais bem posicionados na pesquisa Quaest de 14 de agosto. A entrevista produziu frases fortes, propostas controversas e também algumas respostas que, quando confrontadas com os fatos, revelam contradições, exageros ou informações que precisavam de maior precisão.
E aqui está um ponto que considero fundamental: o eleitor não pode ficar apenas com o corte que viraliza. É preciso voltar à declaração, entender a pergunta, ouvir a resposta e conferir a informação.
Foi exatamente isso que o g1 fez ao publicar uma checagem das principais afirmações do candidato. E a leitura desse material permite compreender melhor o que esteve por trás de alguns dos momentos mais marcantes da entrevista.
Renan acertou, por exemplo, ao afirmar que o Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras. É uma informação verdadeira e estrategicamente importante para o país. O Brasil possui cerca de 11 milhões de toneladas em reservas, atrás apenas da China.
Mas, ao falar sobre os Estados Unidos, o candidato afirmou que os americanos não possuem terras raras em seu território, nem fazem sua extração ou processamento. Essa afirmação foi classificada pelo Fato ou Fake como falsa. Os Estados Unidos possuem reservas, realizam extração e também avançam no processamento desses minerais.
Em outro momento, Renan afirmou que a China teria ficado com todo o processamento mundial de terras raras. A realidade é mais complexa. A China domina amplamente esse mercado, mas não representa 100% do processamento. Segundo os dados apresentados pelo g1, sua participação estava em torno de 85% em 2025. É uma diferença importante porque, em política, especialmente quando se fala de soberania e segurança nacional, precisão não é detalhe.
O mesmo cuidado precisa ser adotado quando se fala de segurança pública.
Renan apresentou uma das linhas mais duras possíveis para o enfrentamento ao crime organizado. Defendeu uma espécie de guerra contra as facções, citou o modelo do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, falou em regime de exceção e estado de defesa em áreas dominadas pelo crime e afirmou que a polícia precisa ter liberdade para enfrentar criminosos com força.
É perfeitamente legítimo defender uma política de segurança mais rigorosa. O Brasil enfrenta um problema real, grave e que precisa ser enfrentado pelo Estado com autoridade, planejamento, inteligência, integração das forças de segurança e valorização dos policiais.
Mas uma coisa é defender firmeza. Outra é transformar a força do Estado em uma resposta sem limites.
Quando Renan apresenta El Salvador como referência, a discussão precisa ir além dos resultados divulgados pelo governo de Bukele. É necessário considerar também as denúncias de violações de direitos humanos e os limites institucionais de um regime de exceção. Na entrevista, o candidato minimizou essas questões e afirmou desconhecer relatos de tortura e desaparecimentos.
Outro ponto que chama atenção é a defesa de que o Brasil desenvolva armas nucleares.
Renan sustentou que uma bomba atômica seria necessária para ampliar a soberania brasileira e permitir que o país se sente em igualdade com as grandes potências. A proposta é de enorme dimensão estratégica e jurídica, pois envolve a Constituição brasileira e compromissos internacionais assumidos pelo país.
Não é uma discussão que possa ser tratada apenas como uma frase de efeito. Uma eventual mudança dessa natureza envolveria consequências diplomáticas, econômicas, militares e geopolíticas de proporções gigantescas.
A entrevista também expôs um candidato que, na minha avaliação, demonstrou despreparo para a dimensão do cargo que pretende ocupar. Renan Santos apresentou respostas muitas vezes marcadas mais pela convicção do discurso do que pela consistência dos argumentos. Em temas complexos, como segurança pública, política internacional, economia e defesa nacional, faltaram maior precisão, domínio das informações e, em alguns momentos, respostas capazes de sustentar as próprias afirmações. Falar com firmeza é importante na política, mas, para quem pretende chegar à Presidência da República, firmeza sem conhecimento e sem consistência pode se transformar em fragilidade.
A entrevista também mostrou momentos em que Renan precisou explicar ou ajustar posições anteriores, inclusive sobre o cumprimento de decisões do Supremo Tribunal Federal. O candidato afirmou que não pretende simplesmente desrespeitar todas as decisões da Corte, mas manteve a defesa de que decisões que considerar ilegais não deveriam ser cumpridas.
É justamente nesse terreno que o eleitor precisa prestar atenção.
O presidente da República não governa sozinho. Não governa acima da Constituição. Não governa sem Congresso, Judiciário, governadores, prefeitos, instituições e sociedade. A Presidência exige liderança, mas exige também capacidade de negociação, responsabilidade institucional e conhecimento profundo dos limites do cargo.
Por isso, minha leitura da entrevista não é de condenação nem de aprovação. É de atenção.
Renan Santos colocou suas bandeiras na mesa. Algumas são legítimas e merecem debate. Outras são controversas e precisam ser examinadas com profundidade. E algumas de suas afirmações, como mostrou a própria checagem do g1, não resistiram integralmente ao confronto com os fatos.
Isso não diminui a importância da entrevista. Pelo contrário. Mostra por que entrevistas presidenciais são tão necessárias.
O eleitor precisa ouvir os candidatos. Precisa confrontá-los. Precisa desconfiar tanto da propaganda quanto do preconceito. Precisa separar opinião de fato, promessa de possibilidade e discurso de projeto.
As redes sociais podem nos entregar um vídeo de 30 segundos. A democracia, entretanto, exige alguns minutos a mais de atenção.
A entrevista de Renan Santos, mais do que apresentar respostas convincentes, expôs ao eleitor as dificuldades de um candidato diante de perguntas que exigiam conhecimento, precisão e capacidade de sustentar suas próprias posições. E esse talvez seja o ponto mais importante a ser observado: uma eleição presidencial não pode ser decidida pela força de uma frase ou pelo impacto de um corte nas redes sociais. O eleitor precisa olhar o conjunto, confrontar as declarações com os fatos e perguntar, com responsabilidade, se aquele candidato está realmente preparado para governar o Brasil.
