A coluna 1 Minuto com Sérgio Machado acompanha de perto os movimentos da eleição presidencial de 2026. E, a partir de agora, cada entrevista, cada debate, cada proposta e cada escolha dos candidatos precisa ser observada com atenção pelo eleitor.
A entrevista de Romeu Zema à TV Globo, dentro do Jornal Nacional, foi um desses momentos importantes. A sabatina colocou o candidato diante de perguntas diretas sobre economia, segurança, saúde, democracia, mulheres, salário mínimo, Previdência e os acontecimentos de 8 de janeiro.
Os cortes produzidos pelo g1 ajudaram a destacar os principais momentos da entrevista e ampliaram a repercussão nas redes sociais. Mas o eleitor não pode se limitar aos cortes. É preciso conhecer o contexto, ouvir a pergunta, compreender a resposta e comparar aquilo que o candidato diz com aquilo que efetivamente pretende fazer.
Zema apresentou como uma de suas principais credenciais a experiência administrativa em Minas Gerais. É um argumento legítimo. Mas administrar um Estado é diferente de governar um país. O Brasil é continental, desigual e reúne realidades econômicas e sociais muito distintas.
E foi justamente aí que a entrevista deixou perguntas importantes.
Na economia, Zema defendeu responsabilidade fiscal, falou sobre salário mínimo e dívida pública. Mas é preciso saber qual será o projeto social por trás desse equilíbrio. Como crescer, gerar emprego, melhorar os serviços públicos e reduzir desigualdades sem transformar a responsabilidade fiscal em justificativa para limitar direitos?
Na questão das mulheres, houve um dos momentos de maior repercussão. Ao responder sobre políticas de proteção, Zema utilizou uma expressão equivocada, afirmando que havia levado adiante programas “contra as mulheres”, quando, pelo contexto, pretendia dizer programas de proteção. Um desencontro de palavras pode acontecer, mas, em uma eleição presidencial, até mesmo esses momentos precisam ser observados.
Outro ponto relevante foi sua posição sobre o 8 de Janeiro. Zema voltou a negar que tenha ocorrido uma tentativa de golpe e defendeu anistia aos condenados ou novos julgamentos.
Aqui, a discussão é maior do que uma preferência política. O eleitor precisa conhecer a compreensão de cada candidato sobre democracia, instituições, Poder Judiciário e Estado de Direito.
Também chamou atenção a defesa de medidas duras na segurança pública, incluindo a proposta de um superpresídio na região Norte e o tratamento das facções criminosas como organizações terroristas.
Segurança pública exige firmeza, mas também planejamento. O Brasil precisa de inteligência, controle das fronteiras, combate ao financiamento das organizações criminosas, fortalecimento das polícias e um sistema penitenciário capaz de impedir que os presídios continuem sendo centros de comando do crime.
Outro assunto que merece atenção é o aumento expressivo do salário do governador de Minas Gerais durante a gestão de Zema. O candidato explicou que a medida teve relação com a necessidade de valorizar e atrair profissionais e afirmou que não ficou pessoalmente com o reajuste, destinando seu salário a instituições filantrópicas.
É um episódio que precisa ser analisado à luz do discurso de austeridade que sustenta parte de sua candidatura.
E há uma questão que interessa diretamente ao Ceará.
Eduardo Girão deixou a disputa pelo Governo do Estado para aceitar o convite e compor como candidato a vice-presidente na chapa de Romeu Zema.
É uma decisão política legítima. Mas também é uma decisão que precisa ser discutida pelo eleitor cearense.
Girão havia apresentado seu nome para disputar o Governo do Ceará. Agora, passa a integrar uma chapa presidencial. A pergunta que fica é: qual será o espaço do Ceará e do Nordeste nesse projeto?
Como Zema pretende tratar as desigualdades regionais?
Qual será o papel da Sudene?
Como será enfrentada a segurança hídrica?
Qual será a política para o semiárido?
Que investimentos serão destinados ao Nordeste?
E qual será a participação de Eduardo Girão na construção dessas respostas?
A escolha de um cearense para a vice pode ampliar a presença da candidatura de Zema no Nordeste. Mas uma chapa presidencial precisa oferecer mais do que representatividade geográfica. Precisa apresentar um projeto de país que dialogue com as diferentes realidades brasileiras.
A entrevista de Zema mostrou um candidato com posições claras e firmes, mas também revelou desencontros, respostas que precisam de aprofundamento e questões que o eleitor deve avaliar com cuidado.
E é exatamente por isso que esta coluna vai acompanhar a eleição.
Não para fazer torcida.
Não para escolher pelo eleitor.
Mas para provocar reflexão.
A eleição presidencial está apenas começando. Virão novas entrevistas, debates, propostas, promessas e, certamente, muitos confrontos políticos.
O papel do jornalismo é acompanhar, questionar, contextualizar e ajudar o cidadão a formar sua própria opinião.
No fim, a decisão pertence ao eleitor.
E o eleitor brasileiro merece muito mais do que cortes de vídeos e frases de efeito.
Merece informação para escolher.
