Senhoras e Senhores: há uma imagem que me assombra! Silenciosa e persistente, como uma nota musical sem par que resiste a se dissipar no ar. É a estampa de alguém que segura água nas mãos. Nas mãos, sim. Não num copo, não numa taça de cristal: nas mãos mesmo, conchas abertas sob a torneira a jorrar, fugindo por entre os dedos como se a própria vida quisesse escapar. A água não espera. A água não fica. E talvez nunca tenhamos respirado um tempo consciente em que essa imagem nos descrevesse tão visceralmente.
Foi Bauman, Zygmunt Bauman – aquele velho sociólogo polonês de olhos cansados de quem viu demais e afiada inteligência – quem nos entregou o nome exato para essa indulgência. Modernidade líquida, proclamou ele. A ideia é cristalina na superfície e abissal no alcance: as coisas que antes eram sólidas – as instituições, os empregos, os casamentos, as convicções, as fronteiras – foram derretendo, gota a gota, século após século. Resumiu ele: “as relações escorrem pelo espaço dos dedos”. Não num incêndio dramático a impressionar, não numa explosão que se pudesse filmar. Vão, as coisas, derretendo devagar, como gelo numa mesa esquecida num fim de tarde, até que abrimos os olhos e percebemos que tudo o que segurávamos já não tem forma fixa – apenas o contorno incerto do que um dia foi.
Lembro Missanta, minha materna avó, cujo riso me dava um nó. Saiu da residência dos pais quando contava dezesseis anos inteiros para se casar com meu avô Tetêro. Viveram juntos, em conjunção familiar, até o dia em que ela o conduziu ao repouso tumular. Continuou residindo na mesma casa ampla e alpendrada até quando, nonagenária e terna, foi ao encontro do marido para celebrar a boda eterna. Era assim no tempo dos nossos avós – e falo dos avós de quem hoje carrega fios de neve nos cabelos – o amor era uma construção de pedra e cal. Casa de tijolo, alicerce fundo na terra, janelas que davam para a imensidão e portas que se fechavam à noite com ferrolho e coração. Não era melhor, necessariamente; era mais duro, talvez, e por vezes, sem propaganda, mais prisão do que abrigo, mais muralha do que varanda. Mas era sólido, e na solidez havia uma essência, espécie de promessa tácita de permanência.
Hoje, sem arremedos, os vínculos nos escorrem pelos dedos. Os namoros, por exemplo, duram o tempo de um deslizar de tela, afetos que nascem na praça e morrem no azul frio de uma tela de vidro que passa. Casamentos?! Assistimos se dissolverem sem ruído, como açúcar na água, sem que ninguém consiga intuir em que instante deixaram de existir. As Amizades… ai, amizades, oh amizades que se evaporam entre uma mensagem lida e outra que jamais será respondida, sob o império de silêncios que pesam mais do que qualquer despedida.
E, sem arrepios, não é que sejamos mais frios. Talvez sejamos, ao contrário de Julieta e Romeu, mais sedentos do que qualquer geração que nos antecedeu. O problema é que aprendemos a beber de tudo e perdemos a capacidade de nos saciar. Há uma cultura do descartável por todo lado que se infiltrou nos afetos como erva daninha num jardim abandonado. Se a relação rachou, troca-se; ou bloqueia se a pessoa cansou. Se o vínculo exigiu demais, simplifica-se e não se busca mais. A facilidade de romper ganhou amplitude e se transformou em assombrosa virtude. Chamamos de liberdade o que talvez seja ou venha parecer, muitas vezes, apenas o medo disfarçado de permanecer.
Bauman escreveu sobre tudo isso com a delicadeza e a memória de quem vê um mundo inteiro escorregar pelo ralo da história. Dizia ele que vivemos o pavor da fixidez – porque o que é fixo pode quebrar, e o que quebra dói com uma dor incapaz de se apagar. Então escolhemos o líquido. Escolhemos o que flui, desborda, contorna e transborda. Mas há um preço que pagamos em silêncio, como quem sangra por dentro: a solidão de quem não consegue mais ancorar o barco em porto nenhum, porque ancorar significa risco, e risco é a palavra que nos pasma, como se estivesse a nomear um fantasma.
Senhoras e Senhores: ouso opinar que, possivelmente, o desafio da nossa época não seja escolhermos entre desvigor e fortaleza, entre o sólido e o líquido, entre a rocha e a correnteza. Talvez seja algo diferente: aprender a sermos, nós mesmos, o recipiente. Não a água que escorre e se perde, não o vidro que quebra e corta – mas as mãos e os pés, que seguram, abrem e fecham com a sabedoria das marés. Que sabem quando soltar e quando reter, vindo a descobrir quando acolher e quando deixar partir com prazer. Não é fácil para ser nenhum. Nunca foi, em tempo algum. Mas é o que resta, é o que nos resta: encontrar, num mundo onde tudo flui e nada parece perdurar, a coragem de construir algo que resista e possa se afirmar. Mesmo que seja frágil, de qualquer jeito. Mesmo que seja imperfeito. Mesmo que seja, oh claridade ativa!, como tudo o que é profundamente humano, apenas uma tentativa. Uma tentativa bela e teimosa, necessária e radiosa, agregadora e sedutora!
