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Os cês do causídico

Uma lei modesta fixou no dia onze desse mês o Dia do Advogado, e o mês inteiro acabou absorvendo o significado. Agosto passou a ser o mês em que se olha para a Advocacia não como rotina, mas como retorno à origem de uma mina

Foto: DINO

Era o ano oito antes de Cristo e o Senado Romano decretou: o oitavo mês do ano deveria se chamar Augusto (“venerável”, “magnífico” em Latim). Isto posto e bem-disposto, para a última flor do Lácio, é simplesmente Agosto. E esse mês, exibindo uma vestimenta simbólica que namora o indecifrável, impregnou a advocacia de um perfume memorável.

Uma lei modesta fixou no dia onze desse mês o Dia do Advogado, e o mês inteiro acabou absorvendo o significado. Agosto passou a ser o mês em que se olha para a Advocacia não como rotina, mas como retorno à origem de uma mina… Pensei, então, num simples exercício: cinco palavras começadas pela letra c e que, à moda de um frontispício, poderiam dizer algo sobre esse magno ofício.

Conhecimento é o primeiro. Conhecimento, por inteiro. Aliás, o verdadeiro conhecimento é próprio daqueles que conhecem o saber feito cimento. Aquele que nenhum diploma açula e às margens dos códices se acumula. O advogado vê a lei mudar, a jurisprudência se deslocar, o fato surgir sem avisar. E, a mais não poder, há brilho e beleza nesse constante aprender. E eis sua ensinança mais consequente: o aprendizado permanente, que faz da advocacia uma profissão diferente.

Depois vem a convivência, que talvez seja o pilar mais subestimado. A Advocacia é uma vinha que não prospera sozinha. Constrói-se nas antessalas, nas audiências onde se cruzam olhares sob o embalo da emoção e, principalmente, nas mesas de negociação. O advogado é um convivente — com assustados clientes, com juízes às vezes impertinentes, com colegas não raro irreverentes. E convive com a parte humana do processo em cada ocasião: a herança que dividiu irmãos, a palavra que feriu, o contrato que ninguém leu com atenção. Tudo isso passa pelas suas mãos.

A coragem é o terceiro pilar, e talvez o mais lapidar. Não me refiro a gestos heroicos nem a uma batalha espetacular. Falo da coragem rotineira, a que se manifesta em dizer ao cliente a sílaba verdadeira. Que o caso é difícil e delicado, detalhando o que precisa ser explicitado. Há uma coragem específica de quem ousa ficar postado entre o cidadão – na maioria dos casos, injustiçado – e o aparelho do Estado.  E diz: vou agir sem pausa, representar esta pessoa e dar voz a esta causa. Os gregos tinham uma palavra luminosa — parrésia, o falar franco, a afirmação corajosa. O causídico que a essa dignidade alude, pratica, sem nomear, uma antiga virtude.

Conselheiro – eis o semblante brioso de um advogado verdadeiro. O aconselhamento está na raiz da relação advogado–cliente e constitui sua essência, ancorada na confiança mútua e na transparência. Calamandrei reservava à consultoria uma natureza de sanidade, pois é ela que previne a litigiosidade. O bom advogado põe as partes diante do espelho e resolve uma quizila sob a aura de um bom conselho.  

E por fim, a cordialidade. Aqui é preciso cuidado com o sentido escorreito. Não falo do adjetivo que Ribeiro Couto cunhou com jeito e que Sérgio Buarque de Hollanda transformou em conceito: a cordialidade como o riscado do homem brasileiro que confunde o público e o privado. Falo de outra coisa: a cordialidade na visão que a palavra carrega: raiz, cor, cordis, coração. A disposição de tratar cada pessoa como pessoa, de não reduzir o cliente a um número processual, de não transformar a relação profissional em mero trânsito contratual. Um advogado cordial, nesse sentido, é também valente, nunca um sujeito mole ou condescendente. É alguém que entende que, atrás de cada petição, há alguém com caractere particular: medo, dívida, esperança, filhos, nome a preservar. E ali está ele para lutar!

Se olharmos para trás, a Advocacia, profissão venerável, tem uma genealogia longa e inevitável. Os retóricos da Grécia fizeram dela um altar, do qual louvavam a arte de argumentar. Montaigne, que foi magistrado e conhecia de perto o mundo dos tribunais, chegou a escrever: o mais difícil não é julgar, mas compreender. O advogado não é o juiz, não é a parte, não é a testemunha dessa arte. É quem compreende todos esses lugares para avançar pelos sete mares. Essa a síntese do nosso labor: compreender e empreender com amor!

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