O mundo já testou essa fórmula antes. Nos Estados Unidos, foi Donald Trump saindo da TV direto pra Casa Branca.
Na Argentina, Javier Milei virou presidente em 2023 com 56% dos votos, usando as redes e um casal de jovens influenciadores pra vender a imagem de anti-sistema, hoje já com sinais de desgaste. A Bloomberg registrou queda de 72% nas menções a ele desde o pico de fevereiro de 2025.
Na Ucrânia, um comediante sem currículo político, Volodymyr Zelensky, venceu em 2019 embalado pela fama de ator. Faltando plano de governo, sobra imagem. E o Brasil está no meio da própria versão disso agora.
Augusto Cury (Avante), escritor de autoajuda, saltou de 1,6% para 7,8% das intenções de voto em um mês, segundo a AtlasIntel, o maior crescimento entre todos os candidatos à Presidência. Pelo Nexus/BTG Pactual, ele já soma 11%, superando nomes com décadas de carreira.
O salto começou depois do debate da Band, do qual Lula, Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo) nem participaram, e coincidiu com um crescimento de seguidores que analistas já classificam como atípico e investigam se a ação está sendo coordenada por Pablo Marçal, já que este tem ajudado Cury nas redes sociais.
E o vácuo de propostas não é exclusividade do outsider. O próprio Flávio Bolsonaro (PL), candidato tradicional, também fugiu do assunto quando cobrado. Na sabatina da TV Globo, foi confrontado por um artigo de 2019 em que chamava o aquecimento global de “discurso apocalíptico”. Perguntado se mudou de posição, falou em “épocas cíclicas” e resumiu toda a política ambiental a saneamento básico. Ninguém insistiu.
No Ceará, esse esvaziamento também apareceu. No debate da última quinta,28, Ciro Gomes (PSDB) chamou o cabelo de Camilo Santana (PT) de “rabo de guaxinim”, e Elmano de Freitas (PT) transformou a piada em estratégia de rua.
Pra quem vive no interior do Ceará, esse roteiro chega pelo WhatsApp da família tão rápido quanto em qualquer outro lugar. E é aí que mora o perigo. Enquanto se discute cabelo e engajamento, ninguém pergunta o que cada candidato pretende fazer com a seca, os efeitos do El Niño ou o saneamento que falta em tanta zona rural do Ceará.
