A Operação “Make Up”, deflagrada pela Polícia Federal na quinta-feira, 10, cumpriu sete mandados de busca e apreensão no Ceará, nos municípios de Fortaleza e Aquiraz. A ação investiga suspeitas relacionadas a recursos de emendas parlamentares destinadas pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP) e possíveis conexões com empresas e entidades ligadas ao filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Entre os alvos estão empresas do setor editorial e empresários ligados a elas. O cearense Dayvid Moreira Medeiros, dono das editoras HD Cultural e Dinâmica Editora, foi alvo da PF. As duas empresas estão sediadas em Rio Claro (SP). No Ceará, também foram alvo de mandados a Mecla Soluções Educacionais, nome empresarial da Mecla Editorial, e a Cometa Livraria, ambas em Fortaleza.
Daywson Moreira Medeiros, irmão de Dayvid, e Georgia Helena Medeiros Lira, esposa de Daywson, são sócios-proprietários da Mecla Soluções Educacionais e também foram alvos da operação. A Cometa Livraria, de Ana Patrícia Aguiar Santos, teve um mandado cumprido no bairro Quintino Cunha, em Fortaleza. A empresa funciona no mesmo endereço da antiga empresa de Dayvid e Daywson.
Entenda a investigação
No centro da apuração está o Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Ferreira da Gama, produtora do filme “Dark Horse”. Segundo a Polícia Federal, o instituto firmava contratos com órgãos públicos para executar projetos sociais e posteriormente subcontratava empresas para realizar as atividades.
Em 2025, o ICB recebeu R$ 2 milhões por meio de duas emendas parlamentares de Mário Frias para projetos de educação digital e esportes de combate em Pirassununga (SP). De acordo com a PF, os projetos não foram totalmente concluídos.
Um dos projetos, o “Jovem Empreendedor”, recebeu R$ 1 milhão por meio de uma emenda indicada por Mário Frias. O ICB contratou a Dinâmica Editora, de Dayvid Medeiros, para fornecer 2,5 mil kits pedagógicos.
Segundo a investigação, a Dinâmica participou de uma “falsa licitação” realizada pelo ICB. As outras empresas que teriam concorrido com ela também apresentavam vínculos com Dayvid ou com pessoas relacionadas ao grupo investigado: HD Cultural, Cometa Livraria e NTT Editora.
A Dinâmica foi selecionada, mas, segundo a PF, os materiais foram produzidos pela HD Cultural. A nota fiscal foi emitida em fevereiro de 2025, enquanto os livros foram entregues somente em junho de 2026. O prazo para execução do projeto havia terminado em janeiro de 2026, e, segundo a investigação, o público-alvo não recebeu o material.
No mesmo projeto, outros R$ 300 mil foram destinados à produção de um kit pedagógico digital. Participaram da segunda “licitação” HD Cultural, Cometa Livraria, NTT Editora e o Instituto Super Poder Educacional, de Pamella Cristiane Dias.
Pamella é irmã de Heric Fabiano Dias, ex-sócio de Dayvid Medeiros, e também é apontada como coordenadora editorial da HD Cultural. O Instituto Super Poder Educacional foi escolhido para executar o contrato e entregou dez videoaulas em uma plataforma on-line. Os vídeos acumulavam sete visualizações, enquanto a meta do projeto era alcançar 2,5 mil pessoas.
Movimentação financeira da Cometa
Criada em 2022, a Cometa Livraria, localizada no bairro Quintino Cunha, em Fortaleza, recebeu mais de R$ 36 milhões em recursos do Fundeb e do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), segundo a Polícia Federal.
Entre maio de 2025 e abril de 2026, a empresa recebeu e posteriormente transferiu mais de R$ 28 milhões. A maior parte dos recursos, conforme a PF, veio de contratos com prefeituras e secretarias de Educação do Nordeste. A investigação não apresentou indícios de ilegalidade nesses contratos.
A PF destacou, porém, o volume de saques em espécie realizados pela empresa. Somente em março de 2026, foram 11 saques que somaram R$ 549 mil. Os valores incluíam retiradas de R$ 49.991, abaixo do limite de R$ 50 mil que gera notificação às autoridades monetárias.
Para a Polícia Federal, os saques são “indícios de tentativa de burla aos sistemas de controle”. A corporação afirmou ainda que o período em que as movimentações ocorreram é “compatível com os fatos investigados”, mas não informou se o dinheiro tinha relação direta com as suspeitas envolvendo as emendas de Mário Frias.
Relação com empresas ligadas ao filme
A investigação também identificou uma possível conexão entre recursos relacionados ao ICB, empresas vinculadas ao grupo empresarial de Heric Dias, a NTT Brasil e a Go Up Entertainment, responsável pelo filme “Dark Horse”.
Dayvid Medeiros foi sócio de Heric Fabiano Dias, proprietário da NTT Brasil. A empresa transferiu R$ 750 mil para a Go Up Entertainment durante o período em que o filme estava sendo produzido.
Heric é irmão de Pamella Cristiane Dias, proprietária do Instituto Super Poder Educacional. A PF aponta que a Dinâmica Editora e o Instituto Super Poder Educacional integram o mesmo grupo empresarial. As duas empresas receberam juntas cerca de R$ 700 mil do ICB.
A Polícia Federal ressalva que os elementos disponíveis não permitem afirmar que os R$ 750 mil transferidos pela NTT Brasil tenham origem direta nos recursos recebidos pelo ICB. Para os investigadores, a coincidência entre os valores e a proximidade temporal das operações são circunstâncias relevantes para a análise financeira.
Na decisão que autorizou a Operação “Make Up”, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), proibiu as empresas HD Cultural, Dinâmica Editora, Cometa Livraria, Mecla Soluções Educacionais, Instituto Super Poder Educacional e NTT Brasil de participar de licitações envolvendo órgãos públicos.






