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De Itapajé aos Estados Unidos: cearense de 20 anos faz intercâmbio em universidade americana

Antes de chegar à universidade americana, Moisés foi duas vezes medalhista de bronze na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas

Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

Aos 20 anos, o cearense Moisés Rocha vive uma etapa que começou a ser construída ainda no Ensino Médio, em uma escola pública de Itapajé, no interior do Ceará. Desde o início de agosto, o estudante está nos Estados Unidos, onde participa de um intercâmbio na Universidade de Illinois enquanto cursa Direito pela Fundação Getulio Vargas (FGV), no Rio de Janeiro. As informações são do Diário do Nordeste.

A experiência internacional é mais um capítulo de uma trajetória marcada por oportunidades conquistadas a partir do desempenho acadêmico. Antes de chegar à universidade americana, Moisés foi duas vezes medalhista de bronze na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP) e integrou, ainda no Ensino Médio, atividades do Centro para o Desenvolvimento da Matemática e Ciências (CDMC), da FGV.

Foi por meio da escola onde estudou, a Escola Estadual de Educação Profissional (EEEP) Adriano Nobre, que o estudante começou a construir esse caminho. Localizada no bairro Esmerino Gomes, no chamado “pé da serra” de Itapajé, a instituição oferece ensino em tempo integral e formação profissional desde 2009. Segundo o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2025, a escola aparece como a quarta melhor da rede pública do Ceará.

Da escola pública à FGV

O contato com o CDMC abriu para Moisés a possibilidade de disputar uma vaga na FGV. O programa seleciona estudantes de escolas públicas com bom desempenho acadêmico e oferece preparação para o processo seletivo da instituição.

Depois de ser aprovado no vestibular, o jovem conquistou gratuidade integral no curso de Direito e auxílio financeiro para custear a permanência no Rio de Janeiro.

Moisés deixou o Ceará em janeiro de 2024, aos 18 anos. Até então, nunca havia saído do Estado. A mudança também representou uma novidade para a própria família, que não tinha experiência de viver fora do Nordeste.

“Minha família nunca tinha saído nem do Nordeste. Eles saíram do Nordeste a primeira vez pra me visitar no Rio”, conta.

A decisão de partir não foi imediata. Moisés precisou convencer os pais de que deveria aceitar a oportunidade.

“Nunca tinha saído do Ceará, mas eu bati o pé e falei para os meus pais: ‘Eu não vou deixar a oportunidade passar, eu vou agarrar, eu vou para o Rio e eu vou sonhar mais fundo’. Foi a primeira vez que eu vi o meu pai chorando na minha frente”, lembra.

A trajetória do pai ajudou a moldar essa disposição para buscar novos caminhos. Criado em uma família humilde do sertão de Itapajé, ele deixou a escola na sexta série e perdeu o pai quando tinha sete anos. Mais tarde, retomou os estudos pela Educação de Jovens e Adultos (EJA), cursou Direito e, aos 50 anos, conseguiu a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

“Meu Deus, se meu pai tem 50 anos e está fazendo isso, por que eu não posso fazer com 20?”
Moisés Lopes
Estudante de Direito

 

O intercâmbio

Durante a graduação, o estudante passou a planejar uma experiência fora do Brasil. Os alunos da FGV podem concorrer a programas de intercâmbio com universidades estrangeiras a partir do sexto período.

Moisés participou da seleção interna e conseguiu uma vaga na Universidade de Illinois. A parceria entre as instituições também reduziu parte dos custos da viagem. A bolsa conquistada pelo estudante cobre aproximadamente dois terços do valor total.

“Um terço do custo ela não cobre. Então eu já estava planejando esse intercâmbio há alguns anos, já tinha uma certa reserva em dólar. Meus pais também já tinham uma certa reserva e aqui na universidade eu também tenho a opção de trabalhar em serviços do campus”, explica.

A previsão é que ele permaneça nos Estados Unidos até dezembro, com possibilidade de estender a estadia até junho do próximo ano. As disciplinas realizadas durante o período no exterior podem ser aproveitadas na graduação no Brasil.

A escolha da universidade também tem relação com os interesses profissionais do estudante. A instituição possui uma aproximação entre as áreas de Direito e Economia, enquanto Moisés pretende seguir carreira como advogado nos segmentos tributário e empresarial.

Uma mudança de cada vez

A ida para os Estados Unidos representa a segunda grande mudança de país e de rotina acadêmica vivida pelo estudante em poucos anos. Primeiro, ele saiu de uma cidade de menos de 50 mil habitantes para o Rio de Janeiro, que tinha 6,2 milhões de habitantes no Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Agora, está em outro país e precisa acompanhar as atividades acadêmicas em inglês.

O idioma, aliás, também foi aprendido de maneira independente. Moisés conta que estudou inglês por conta própria durante a pandemia.

A adaptação, segundo ele, foi facilitada pela disposição para conhecer pessoas e pela experiência anterior com estudantes de diferentes regiões do Brasil.

“Eu nunca tive vergonha de nada, sempre dei a cara a tapa e, graças a Deus, sempre fui muito fácil de fazer amizade. Então a adaptação no Rio pra mim foi muito fácil, assim como aqui nos Estados Unidos. Não porque é fácil, mas porque se você dá a cara a tapa, se você vai sendo comunicativo com as pessoas, você consegue fazer novas amizades mais fácil”, afirma.

Na FGV, o convívio com outros estudantes selecionados pelo programa também ajudou a ampliar sua visão sobre diferentes trajetórias vindas da rede pública.

O próprio estudante resume essa experiência como uma oportunidade de estar constantemente em ambientes nos quais possa aprender com pessoas diferentes.

“Se você é o melhor do lugar que você está, você está no lugar errado. Você tem que sempre estar em lugares que as pessoas são muito melhores que você, que é pra você aprender com as pessoas”, diz.

Sonhos maiores

Antes de conseguir a vaga nos Estados Unidos, Moisés tinha outro destino em mente. O objetivo inicial era estudar em Harvard, nos Estados Unidos. A universidade de Illinois acabou sendo o destino escolhido, mas a ambição profissional continua.

“Meu sonho era fazer intercâmbio em Harvard, que é a Lua, que é o topo. Não fui para Harvard, mas fui para uma das melhores universidades de Direito dos Estados Unidos. Aqui a mesma coisa: meu objetivo é ser o melhor da sala”, afirma.

A experiência também passou a ser compartilhada nas redes sociais. Depois de permanecer anos afastado do Instagram, o estudante retomou a plataforma após chegar aos Estados Unidos e começou a mostrar parte da rotina acadêmica e pessoal no exterior.

As publicações fizeram com que outros jovens passassem a acompanhar sua trajetória, inclusive estudantes da própria escola onde estudou.

“Muita gente, muita gente mesmo, principalmente estudantes, e estudantes da minha escola, da minha ex-escola, que eu nunca conheci, não sei nem quem é, nem conviveram comigo, me seguindo e acompanhando e vendo diariamente, falando o quanto aquilo estava inspirando”, conta.

Aos 20 anos, o jovem que deixou Itapajé pela primeira vez aos 18 agora vive uma experiência acadêmica internacional. O percurso começou em uma escola pública do interior do Ceará, passou pela graduação no Rio de Janeiro e chegou aos Estados Unidos, onde Moisés segue ampliando a formação e os planos para a carreira no Direito.

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