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A celebração dos que nasceram com o futuro na mão

No fundo, o Dia da Criança é também um bombástico aparelho: uma data que acende um alerta vermelho e nos obriga a olhar para frente sem desviar a vista do espelho. Comemoramos não apenas os que são, mas os que serão — e, de passagem, o que fomos até então

Foto: Niceia Lira

Ela é como uma delicada baliza, uma estrela d’alva que ao céu alisa. Batizada Luísa, possui o gérmen azul de uma poetisa e se apresenta como uma flor de luz envolta em brisa. Tem menos de dois novembros, mas diariamente da sua fisionomia relembro. E essa amabilíssima lembrança me vem por conta do Dia da Criança. O rubro Outubro de sol caliente nos dadivou, à Toscana, com essa data dolce far niente! Que lúdico presente!

Cada geração tem sua peculiaridade. Nascemos duas vezes: uma do corpo, outra da temporalidade. Minha compleição biológica se gestou na chamada geração analógica. Os nascidos no entorno de um curral, batizados sob uma pia artesanal, celebramos, de forma especial, cada alteração e altercação espacial até atingirmos esse pico de estupefação digital. Para nós, era um assombro de prazer abrir uma cartilha para aprender a ler e, na sequência, entregar-se à magia do ato de escrever. Para nós, por exemplo, era uma verdadeira ilha da fantasia frequentar uma escola de datilografia. Ninguém tinha noção que aquilo era espécie de iniciação, oh céus!, para futuros e fortuitos pixels.   

Fomos testemunhas de verdadeiros acontecimentos sob o embalo da velocidade modificadora dos inventos. Quando ao telefone fixo a gente se acostumava, surgiu o fone móvel e o celular que dobrava, depois uma tela que na palma da mão se abrigava. Foi essa sobrevivente geração que presenciou a mais fabulosa transição, da manualidade à automação.

Duas gerações surgiram nessa reta: uma chamada Alfa e a outra, Beta. Ambas emergiram, por inteiro, neste século vigésimo primeiro. A Beta, geração genial, já nasceu sob a égide da inteligência artificial. Seus membros crescerão desprovidos daquele medo original do primeiro contato com a máquina digital. E talvez em relação ao novo sejam menos inseguros, detendo muito mais capacidade de habitar o futuro.

Há também o ar que essas crianças vão respirar, e ele vem carregado de urgência singular. Esses niños crescerão sob debates ambientais que em discursos não cabem mais. Conviverão com um clima inclemente, mudando sob o ritmo apressado dos impacientes. Presenciarão o verão esticar, a chuva desandar e o mar avançar. Serão, talvez, a primeira geração a encarar a sustentabilidade de modo arrojado: não será causa nem modismo, mas algo tão óbvio quanto dizer obrigado.

Estudos demográficos generosos projetam que os Betas serão numerosos. De forma especial, até 2035 somarão 16% da população mundial. Pensemos nisso, com o olhar além: a Luísa de hoje conhecerá o ano dois mil e cem. Ao invés de uma ficção, a famosa longevidade, essa silenciosa revolução, terá transformado em experiência comum o que hoje é exceção.

Induvidoso que as crianças desses últimos meses, de modo geral, nasceram num mundo moldado pela inteligência artificial.  Mas nasceram, antes de tudo, com as mãos pequenas abertas e a mesma pergunta antiga nas íris despertas. Carregam, no panteão invisível da memória, igual desejo de colo e de história. E esta, possivelmente, seja para eles a mais preciosa herança: a de preservação da tocha da esperança. E que dela se espalhe o fogo da bondade, alimentando as máquinas com motores de humanidade. 

No fundo, o Dia da Criança é também um bombástico aparelho: uma data que acende um alerta vermelho e nos obriga a olhar para frente sem desviar a vista do espelho. Comemoramos não apenas os que são, mas os que serão — e, de passagem, o que fomos até então. A infância é a única fronteira por onde todos já passamos em determinado momento e da qual ninguém guarda mais que fragmentos: um cheiro, um corredor, uma tarde sem ventos. 

Porque toda criança, Beta ou Alfa, nomeada ou sem nome, é a prova de que o futuro nunca some. Ele é remédio, nunca veneno, pois ainda se atreve a começar pequeno. E enquanto houver uma Luísa exibindo um sorriso que nos hipnotiza, cantaremos a semente que fertiliza. E o Dia da Criança, que honradamente louvo, mostrará para o inumerável povo que sempre haverá tempo para começar de novo.

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