“O mercador da morte morreu” – eis a manchete que o jornal francês estampava naquele ano de 1888 referindo-se ao sueco Alfred Bernhard Nobel. Químico, engenheiro, inventor e empresário, Nobel, então bilionário, ficou estarrecido ao ler o próprio obituário. Por um desígnio de sorte, não tinha sido alcançado pela mão da morte. Por equívoco da redação, não era ele o extinto, mas Ludvig, um seu irmão.
No entanto, aquela fatídica notícia, publicada por engano, fez Alfred Nobel mudar de plano. (Mercador da morte? Será essa a minha sorte?!) Autor de vários inventos, como explosivos e armamentos – acredite: foi ele que criou a dinamite! – resolveu alterar o último dos seus testamentos. Consignou: “A totalidade do que resta da minha fortuna será organizada da seguinte forma: o capital, investido em valores seguros por meus testadores, constituirá um fundo cuja participação será distribuída a cada ano na forma de prêmios entre aqueles que durante o ano anterior fizeram o maior benefício para a humanidade.” Nascia aí o Prêmio Nobel, até hoje o mais ambicionado laurel. E, para nossa profunda alegria, o mercador da morte se transformou em um nobre da filantropia.
A mesma Estocolmo de Alfred, que fez essa revolucionária inflexão, agora resolveu nos legar outra admirável reflexão. As salas de aula da terra do Nobel estão retomando as páginas de papel. A pátria Sueca, uma das mais digitalizadas do planeta, resolveu redimensionar essa faceta. O país que nos ensinou guardar música na nuvem como quem coloca pão ao forno, que pôs o telefone sob nosso entorno, resolveu promover um extraordinário retorno. A sala de aula está realizando esse regresso e sendo reconstruída em torno do livro impresso.
Longe de ser um refluxo caprichoso, trata-se de um louvável recuo luminoso. Desde o fim dos anos 2000, por cerca de quinze anos, a Suécia abraçou a digitalização da escola em todos os seus planos. Era uma imagem de portento e fortaleza: computadores, notebooks e tablets em cada mesa. Ou seja, a silenciosa convicção de que instantânea informação produziria rápida compreensão. Em 2019, o uso de tablets comeu de esmola e entrou formalmente no currículo da pré-escola. Sendo o país da vanguarda tecnológica do mundo, parecia natural que suas escolas liderassem esse itinerário profundo.
O tempo, porém, nos deixou pasmos: respondeu com uma sobriedade de quem não se deixa convencer por entusiasmos. O digital castelo de sonhos ruiu: a pontuação sueca caiu. A antes fecunda colmeia estava com resultados abaixo da média europeia. O PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), por sua vez, registrou a dimensão da problemática: inacreditáveis perdas também em leitura e matemática. A reação veio do Ministério da Educação. Lotta Edholm, a ministra de então, alertou a nação. Havia o risco de analfabetismo funcional e determinou a suspensão do plano nacional de digitalização. Em 2023, abriu um processo de revisão do prumo: consulta com pesquisadores para reavaliar o rumo.
O governo abriu o cofre e redirecionou os investimentos educacionais, voltou a comprar livros didáticos impressos e analógicos materiais. As pré-escolas receberam a notícia essencial de que foram libertadas das metas de obrigatoriedade digital. Foram impostas a docentes, discentes e outros pares restrições severas ao uso de celulares. As provas nacionais do início do ensino fundamental voltaram a ser feitas no papel, de forma natural. E para 2028 está previsto um currículo novo, com inovações essenciais, fieis aos métodos estruturados e tradicionais.
O essencial, porém, é o que esse movimento não é. A máquina, enquanto instrumento que pulsa, da escola sueca não foi expulsa. O laboratório ferve, o vídeo ainda projeta a verve, o software ainda serve. O que mudou é o posto que a tecnologia ocupa no espaço educacional: deixou de ser o modelo exclusivo e central. Ao invés de ser o altar em volta do qual se organiza a pedagogia, passou a ser uma ferramenta usada com moderação luzidia. O que a Suécia pratica não é nostalgia: é maturidade tecnológica sem barulho, a capacidade rara de adotar com entusiasmo e corrigir sem orgulho.
No Egito, o rei Thamus recebeu com a cara aflita a tecnologia de invenção da escrita. Considerou-a um tormento, pois na alma dos aprendizes criaria esquecimento. Temia, em essência, que ela fabricasse uma sabedoria de aparência. Cada meio novo já foi o escândalo da sua geração e o alfabeto que hoje defendemos contra as telas foi, um dia, objeto de insurreição. Não eram absurdos esses temores insurretos; todos estavam incompletos. Eis o aprendizado: não é do novo desconfiar, mas resistir à tentação de, antes de conhecê-lo, a chave da casa entregar. A Suécia, que tanto ensinou o mundo a correr, agora ensina a elegância de ensinar sem descurar do prazer.
