Ele era o típico “pedra noventa”. Não calçava quarenta: era oito ou oitenta!!! Neste ano de 2026, se entre nós, estaria esticando sua inconfundível corda de voz e acendendo a vetusta vela de oitenta nós. Tinha nome de Mago, Belchior, e compunha sob a irradiação do amor. Também tinha nome de um santo fagueiro, o Antônio, que dos casamentos se fez padroeiro.
Quem melhor do que ele encarnou o “charme brasileiro” através da canção e fez da teoria de “amar e mudar as coisas” uma verdadeira alucinação?! Belchior compôs como quem erige monumentos filosóficos essenciais; mais do que encantadoras rimas, legou-nos ensaios existenciais. Papeou, nas asas delicadas do pensamento, com filósofos dos mais variados estamentos.
Viveu, conviveu, absorveu o dilema de sua geração e, sobretudo, entendeu o tempo como uma força inexorável de renovação. Você não sente nem vê, mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo, que uma nova mudança em breve vai acontecer. Ele rejeitava o apego ao passado e a mordaça da estagnação: “o passado é uma roupa que não nos serve mais” – foi emblemática lição. Tudo flui e tudo muda, filosofou Heráclito; o novo sempre vem, decretou nosso paráclito.
Em que pese se considerar um sujeito de sorte, porque apesar de muito moço, se sentia são, e salvo, e forte, notou que precisava resistir e cambiar o porte. Na solidão de uma grande capital, lapidou a íntima pedra fundamental e amargou o ápice do vazio existencial. Compreendeu o verdadeiro sentido do bagaço de cana quando teve que passar pela cruel moenda da angústia urbana. E desabafou: tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro; ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro.
Senti uma lampejo diferente quando estivemos frente à frente, oportunidade em que o conheci pessoalmente. Apreciava o vinho verde de Portugal e o frango ou o peixe como prato principal. Era simples, leve, brincalhão e frugal, como sói ocorrer com quase todo sujeito livre e genial. O que o tornava detentor de certa sedução fascinante, era a abstração típica de menestrel delirante, o gibão de andarilho filosófico e de cavaleiro irremediavelmente errante.
Belchior fazia tricô com Nietzsche, o alemão estranho, que criticava a cegueira das massas e a moral de rebanho. O sobralense vociferava contra as metafísicas ilusões e o platonismo acovardado de um suposto mundo de perfeições.
Lembrando Zygmunt Bauman, as músicas de Belchior flertam com o tempo e sua velocidade, com as líquidas relações modernas e sua fragilidade. Medo de Avião desperta um alerta à emotiva cognição, sintetizada em segurei pela primeira vez a sua mão. É uma de suas lições mais vibrantes e pulsivas, ao representar e significar nossas fobias existenciais e afetivas. Em Galos, Noites e Quintais, temos o dual e arrebatador contraste da remessa: a um, a calmaria do interior; a dois, a urbana pressa. Tudo Outra Vez é um discurso para lá de sincero: incorpora o desapego de um ex-membro do clero, que aceita a impermanência e topa recomeçar do zero.
Sartre, o pai do moderno existencialismo, também influenciou Belchior contra o pegajoso modismo. À Sartre, e em semelhante plano, está a música Apenas um Rapaz Latino-Americano. O mancebo do interior se apresenta com a incomum destreza de não ter dinheiro no banco e nem título de nobreza. De Sartre apreendeu que a existência precede à essência. Tudo para nos mimosear com sua frase mais lapidar: “Viver é melhor que sonhar”. Impossível não se fascinar!
