Home 1 Minuto com Sérgio Machado O interior não pode ser lembrado apenas na hora da eleição

O interior não pode ser lembrado apenas na hora da eleição

O cenário muda, as circunstâncias surpreendem e os caminhos da vida pública podem conduzir uma liderança a responsabilidades que ela própria talvez não imaginasse assumir. É justamente por isso que a visão estratégica precisa estar presente desde o início. E essa visão começa pela comunicação

Foto: Freepik

Quando políticos, partidos e lideranças compreenderão, de fato, a importância do interior nas decisões que definem os rumos de um estado? Essa é uma pergunta que merece a atenção de quem disputa ou exerce mandatos, mas também de assessores, coordenadores políticos e profissionais de marketing e comunicação.

A política exige visão ampla, capacidade de articulação e compreensão da sociedade em toda a sua diversidade. Quem decide ingressar na vida pública, independentemente do cargo pretendido, precisa entender que a construção de uma trajetória política não se limita ao município onde nasceu, à cidade onde mantém suas principais bases ou aos territórios que considera prioritários.

A política é dinâmica. O cenário muda, as circunstâncias surpreendem e os caminhos da vida pública podem conduzir uma liderança a responsabilidades que ela própria talvez não imaginasse assumir. É justamente por isso que a visão estratégica precisa estar presente desde o início.

E essa visão começa pela comunicação.

O político precisa ser visto, conhecido e acompanhado antes de precisar dos votos. Precisa estabelecer relações com a população, compreender suas demandas, apresentar suas ideias e manter um diálogo permanente com os diferentes territórios. Não se trata apenas de aparecer, mas de construir presença, credibilidade e reconhecimento ao longo do tempo.

É nesse contexto que rádios, emissoras de televisão, portais de notícias e plataformas digitais assumem um papel fundamental. A comunicação regional não deve ser vista como uma ferramenta restrita ao município onde o veículo está instalado. Com a internet, o conteúdo produzido no interior alcança diferentes cidades, regiões, estados e até outros países.

Os veículos de comunicação contemporâneos são multiplataformas. Uma emissora de rádio pode transmitir sua programação pela internet, uma televisão pode distribuir seus conteúdos em canais digitais e um portal pode informar milhares de pessoas independentemente de sua localização geográfica.

Portanto, limitar a comunicação à fronteira administrativa de um município é ignorar a realidade da própria comunicação.

Recentemente, ouvi de um prefeito de um município importante da Região Metropolitana de Fortaleza uma afirmação que me fez refletir. Ao tratar da possibilidade de anunciar em um veículo de comunicação, ele argumentou que não poderia fazê-lo porque o veículo não pertencia ao município.

A declaração merece uma reflexão.

Se o conteúdo de uma rádio, televisão ou portal pode alcançar pessoas de diferentes cidades, por que sua área de atuação deveria ser definida exclusivamente pelo endereço de sua sede? E, se esse raciocínio fosse aplicado de maneira absoluta, qual seria a justificativa para um poder público estabelecer parcerias de comunicação com jornais, portais e emissoras sediados no Sudeste do país?

É evidente que cada contratação precisa observar a legislação, os critérios técnicos, a finalidade pública, a audiência e a adequação entre o meio escolhido e o público que se deseja alcançar. O que não faz sentido é descartar um veículo apenas porque sua sede está fora do território administrativo de quem pretende anunciar, sem considerar seu alcance, sua relevância e sua capacidade de comunicação.

Essa lógica também se aplica à política.

Um prefeito de capital, por exemplo, pode ter interesse legítimo em dialogar com veículos de outras regiões do estado. Afinal, uma liderança que pretende disputar o Governo do Ceará precisa compreender que sua relação com a sociedade não termina nos limites de Fortaleza. O eleitorado estadual é formado por pessoas que vivem em realidades distintas, com demandas, expectativas e prioridades próprias.

O mesmo raciocínio vale para quem pretende chegar à Assembleia Legislativa, à Câmara dos Deputados ou ao Senado. A dimensão de uma candidatura exige uma estratégia de comunicação compatível com o território, o público e os objetivos políticos envolvidos.

É nesse ponto que o marketing político precisa evoluir.

Ainda é comum observar lideranças investindo recursos elevados em articulações municipais, mobilizando cabos eleitorais e intensificando visitas quando o calendário eleitoral se aproxima. Em muitos casos, chegam a determinadas localidades sem conhecer suficientemente suas realidades, sem manter diálogo prévio com a população e sem construir uma relação consistente com os meios de comunicação locais.

O resultado costuma ser uma movimentação intensa, marcada por agendas apertadas, reuniões sucessivas, deslocamentos e tentativas de conquistar, em poucas semanas, um espaço que poderia ter sido construído ao longo de meses ou anos.

Não estou diminuindo a importância dos líderes locais, dos vereadores, dos prefeitos, dos articuladores e dos cabos eleitorais. Pelo contrário. Essas pessoas conhecem suas comunidades, compreendem suas particularidades e desempenham funções relevantes na organização política. O problema começa quando toda a estratégia depende dessas relações e deixa a comunicação em segundo plano.

Liderança política e comunicação não competem entre si. Elas se complementam.

Um bom articulador pode abrir portas, aproximar pessoas e construir alianças. Mas uma comunicação permanente amplia o alcance dessas relações, apresenta o pensamento de uma liderança, informa sobre suas ações e permite que a população acompanhe sua trajetória.

O rádio continua exercendo uma função importante na vida cotidiana de milhares de cearenses. A televisão oferece visibilidade e credibilidade. Os portais ampliam a circulação da informação, enquanto as redes sociais permitem interação, distribuição de conteúdo e acompanhamento contínuo.

Quando esses meios trabalham de forma integrada, a comunicação deixa de ser uma ação isolada e passa a fazer parte de uma estratégia mais ampla de relacionamento com a sociedade.

É justamente essa integração que precisa entrar no planejamento de políticos e partidos. Não basta contratar uma agência para produzir peças publicitárias, organizar publicações nas redes sociais ou preparar uma campanha eleitoral. É necessário pensar a comunicação como um processo contínuo, com objetivos definidos, conhecimento dos territórios, escolha criteriosa dos canais e respeito à realidade de cada público.

Também é preciso compreender que comunicação não significa apenas publicidade. Significa informar, prestar contas, ouvir, explicar decisões, apresentar propostas e estabelecer canais de diálogo. No caso dos agentes públicos, essa dimensão deve estar associada ao interesse coletivo, à transparência e às exigências legais aplicáveis à comunicação institucional.

O marketing político mais eficiente não é necessariamente aquele que faz mais barulho durante a campanha. É aquele que conhece o público, compreende o ambiente em que está inserido e trabalha com planejamento, coerência e continuidade.

E há um aspecto que merece atenção especial: o interior não pode ser tratado como um território secundário, acionado apenas quando chega a hora de pedir votos.

Os municípios possuem identidades próprias, lideranças legítimas, atividades econômicas distintas e demandas que nem sempre recebem a mesma atenção dos grandes centros. Conhecer essa realidade exige tempo, presença, escuta e informação. Os veículos regionais podem contribuir significativamente para esse processo, oferecendo acesso a pautas, debates e acontecimentos que muitas vezes não encontram espaço suficiente nos grandes meios de comunicação.

Para os profissionais de marketing político, fica uma questão essencial: por que esperar o período eleitoral para começar a construir uma presença regional, se essa relação pode ser planejada com antecedência, respeitando a legislação e os limites éticos da atividade política?

O calendário eleitoral de 2028 já merece espaço no planejamento de quem pretende disputar eleições municipais. Mas a preparação não deve ser confundida com antecipação irregular de campanha. Trata-se de compreender os territórios, acompanhar os problemas da sociedade, organizar estratégias de comunicação e construir relações institucionais legítimas, sempre dentro das regras eleitorais.

A comunicação bem planejada reduz improvisos, melhora a circulação de informações e permite que uma liderança chegue a diferentes comunidades com mais conhecimento e responsabilidade. Não elimina os desafios da política, mas ajuda a tornar o caminho mais organizado, transparente e produtivo.

A reflexão que proponho é simples: o interior não pode ser lembrado somente quando se aproxima uma eleição, assim como a comunicação regional não pode ser avaliada apenas pelo endereço de sua sede.

Quem pretende governar, legislar ou liderar precisa compreender a dimensão do território em que deseja atuar. E quem trabalha com marketing político precisa ajudar essas lideranças a enxergar além das fronteiras imediatas, sem perder de vista as particularidades de cada comunidade.

No fim, a política continua sendo feita de pessoas, relações, confiança e capacidade de realização. A comunicação não substitui a liderança, não ocupa o lugar do trabalho e não garante votos por si só. Mas aproxima, informa, dá visibilidade e contribui para que ideias, propostas e ações cheguem a quem precisa conhecê-las.

A eleição não deve ser o ponto de partida da comunicação. Deve ser uma etapa de um processo que começou muito antes.

O interior tem voz, tem relevância e participa das decisões que definem os destinos do Ceará. Cabe à classe política compreender essa realidade. E cabe aos profissionais de comunicação mostrar que planejar, integrar e manter um diálogo permanente com a sociedade não é um custo a ser lembrado na última hora, mas uma decisão estratégica para quem leva a vida pública a sério.

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