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Entre paradas, saudades e bênçãos

Sempre que faço o caminho entre Fortaleza e a minha Mineirolândia — ou no sentido inverso — há um ritual silencioso que me chama pelo nome: a parada em Quixeramobim. Não é o café apenas, nem o descanso do corpo. É o descanso da alma.

Foto: Joaquim Freitas

Sempre que faço o caminho entre Fortaleza e a minha Mineirolândia — ou no sentido inverso — há um ritual silencioso que me chama pelo nome: a parada em Quixeramobim.
Não é o café apenas, nem o descanso do corpo.
É o descanso da alma.

Houve um tempo em que essa pausa tinha endereço certo:
o pé de benjamim, em frente à casa do inesquecível Alfredo Machado,
amigo-irmão do meu pai.
Ali, o tempo diminuía o passo.
Conversar com Alfredo era mais do que prosear; era aprender.
Havia nele uma dignidade mansa,
dessas que não fazem barulho, mas deixam marcas profundas.
Sua presença era bênção.
Sua palavra, poesia vivida.

Quixeramobim sempre foi pródiga em gente boa.
Tenho ali amigos igualmente dignos — Cirilo Pimenta, Chico Teles, Sérgio Machado, Edmilson Júnior, Ricardo Porto, Igor Martins, Clidenor Genoino, e tantos outros — pessoas que carregam no olhar a decência
e no gesto a fraternidade.
E havia também o querido Torres,
meu amigo de infância.
Ah, o Torres…
esse foi chamado por Deus recentemente,
deixando um silêncio que ainda ecoa.

Hoje, o endereço da minha parada é na Padaria Pompeia.
É ali que os reencontros acontecem,
que as histórias se cruzam,
que o passado e o presente sentam à mesma mesa.
Mas hoje, especialmente hoje,
a saudade veio mais funda.
Não apenas de Alfredo.
A saudade de Torres veio com força,
quase física.

Quando eu me aproximava da cidade, ligava.
E ele, sem cerimônia, respondia como quem já sabia o roteiro da amizade:

— “Estou indo pra padaria.”

Nunca falhava.
Muitas vezes, quando eu chegava,
ele já estava lá.
Como se o tempo tivesse combinado com ele.

Hoje não estava.
E a ausência falou alto.

Que saudade, Alfredo.
Que saudade, Torres.

O meu consolo é a convicção serena
de que vocês estão perto Dele.
Porque aqui, na terra,
cumpriram com fidalguia
a missão que lhes foi confiada.
Foram homens bons —
e isso basta.
O resto é eternidade.

Algumas amizades não morrem.
Apenas mudam de endereço.
akam.

Kleber Mineiro

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