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A relevância das bibliotecas

As Bibliotecas são incubadoras culturais que desempenham papéis cruciais na constituição dos reitores da cultura e do saber, do magistério e da historiografia. São majestosos patrimônios de uma cidade

Foto: Freepik

As primeiras bibliotecas nasceram na Mesopotâmia, cerca de 3.000 anos antes de Cristo, sob o húmus conceitual de guarda e manuseio de material escrito, que na época se constituía de placas de argila. Comenta-se que a biblioteca de Nínive, a primeira da história, chegou a abrigar mais de vinte e cinco mil dessas placas de argila. Depois, surgiram os rolos de pergaminho, os papiros… até chegarmos ao nosso atual papel.

“Diz-se que a alma das civilizações reside nas bibliotecas” – foi o que ouvi, certa feita, durante uma solenidade de outorga da medalha Boticário Ferreira ao bibliófilo José Augusto Bezerra, ao ser saudado pelo edil Paulo Facó, que acrescentou: “Amar os livros e construir bibliotecas figura entre as mais admiráveis propensões humanas”. Cícero, um dos maiores oradores da humanidade, asseverou: “Se tiveres um jardim perto da biblioteca, nada te faltará”.

Sucede que esses espaços de ordenamento da sabedoria parecem se constituir verdadeiros afronta à insanidade humana, à ignorância feita arrogância, ao reinado do abuso e à fúria da ganância. É como se esses recintos que zelam pela produção da virtude insuflassem permanentemente o embrutecimento das relações.

A mais famosa edificação de ordenação livresca e o maior referencial cientifico e cultural do Mundo Antigo, a biblioteca de Alexandria, era um lugar onde a jovem princesa Cleópatra, fascinada por leituras, se dirigia quase que diariamente a fim de revigorar o espírito. (Diferentemente do que muitos pensam, Cleópatra, além dos dotes físicos de beleza, impressionava pelo brilho cultural. E esse fulgor de sapiência foi decisivo na sedução ao imperador César). Pois bem, esse extraordinário espaço foi destruído pelo califa Omar.

A grande biblioteca de Atenas, a primeira de natureza pública que se tem ciência, foi saqueada por um rei Persa chamado Xerxes, também conhecido como Assuério.

Quando menino, mirava com admiração, ao lado da Catedral da minha urbe, no meio da praça da matriz, a Biblioteca Pública Municipal. (Inconscientemente, era como se estivéssemos relembrando a Grécia Clássica, onde as bibliotecas eram abrigadas nos templos). Um dia, a pretexto de reforma e embelezamento do local, aquele prédio imponente e acolhedor foi destruído…

As Bibliotecas são incubadoras culturais que desempenham papéis cruciais na constituição dos reitores da cultura e do saber, do magistério e da historiografia. São majestosos patrimônios de uma cidade.

Fechar ou destruir Bibliotecas produz o mesmo efeito deletério da derrubada de árvores centenárias: significa uma dolorosa contusão no miolo da cidadania, é como pisotear a delicada flor da sensibilidade ambiental. Cortar árvore e demolir biblioteca é como se esfaquear o coração cultural de uma comuna. É algo mais potencialmente lesivo do que uma mera dor física. Atinge os escaninhos da alma, o recôndito da consciência, a invisível gruta dos sentimentos.

A propósito, é aprazível recordar a máxima de Samuel Johnson: “nenhum lugar proporciona uma prova mais evidente da vaidade das esperanças humanas do que uma biblioteca pública”. No seu famoso “Poema de los dones” (Poema dos Dons), Borges, o famoso poeta argentino Jorge Luís Borges, proclama que “imaginava o Paraíso sob uma espécie de Biblioteca”. No Egito – segundo o filósofo, teólogo e orador francês, Jacques Bossuet (1627–1704) – “as bibliotecas eram chamadas ‘Tesouro dos remédios da alma’. De fato é nelas que se cura a ignorância, a mais perigosa das enfermidades e a origem de todas as outras.”

Ralph Waldo Emerson ensinou: “Que imenso tesouro pode estar oculto em uma biblioteca pequena e selecionada! A companhia dos mais sábios e dignos indivíduos de todos os países, através de milhares de anos, pode tornar o resultado de seus estudos e de sua sabedoria acessíveis para nós.”

Erijamos Bibliotecas, na terra e na nuvem. Erijamos Bibliotecas, físicas e virtuais. Erijamos Bibliotecas, por um mundo de paz!

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