Escrito por Kleber Mineiro, este poema convida o leitor a uma pausa para refletir sobre o Brasil, sua história e as lições que o tempo ensina ao povo. Com linguagem sensível e simbólica, o autor mistura memória, crítica e esperança para falar de política, dignidade e futuro, a partir de um olhar simples e profundamente humano.
À sombra mansa de Mineirolândia,
onde o vento conversa com as lembranças
e o silêncio sabe mais do que os discursos,
pensei naquele velhinho de Raul Seixas.
Sentado na calçada da vida,
com a viola do tempo nas mãos,
ele dizia:
— Eu vi tudo.
Eu estive em tudo.
Eu sobrevivi a tudo.
E talvez estivesse mesmo.
Porque quem nasce no Brasil
nasce velho cedo,
aprende rápido,
desconfia com sabedoria
e sonha com teimosia.
É como se cada brasileiro pudesse dizer,
sem exagero e sem vaidade:
— Eu nasci há dez mil anos atrás.
Aprendi cedo a ler promessas,
a traduzir discursos
e a reconhecer atalhos perigosos.
Nós já vimos impérios caírem,
salvadores virarem problema,
promessas virarem poeira
e discursos virarem eco.
Já vimos a esperança ser usada
como bandeira
e depois dobrada na gaveta.
Já vimos o certo ser tratado como ingênuo,
o errado como esperto,
e a honestidade como defeito.
E mesmo assim,
continuamos de pé.
Hoje,
olhando os caminhos tortos
que nossos dirigentes insistem em seguir,
parece que esqueceram
de ouvir o velhinho da história.
Esqueceram que o povo
tem memória longa.
Que a alma brasileira
não é tola.
Que a paciência tem limite.
E que a dignidade não se vende
nem em promoção.
Aqui, em Mineirolândia,
onde o tempo anda devagar
para ensinar melhor,
entendi uma coisa:
A saída não virá do grito,
nem do ódio,
nem da vaidade.
Virará do reencontro.
Do reencontro com:
— a verdade,
— o respeito,
— o trabalho sério,
— e a coragem de servir
sem querer aplauso.
A saída é simples,
mas exige grandeza:
Menos palanque.
Mais caráter.
Menos discurso.
Mais exemplo.
Menos poder.
Mais propósito.
Quando o Brasil voltar a ser
governado como se governa uma casa humilde — com cuidado, zelo e responsabilidade —
o futuro vai bater na porta
sem precisar ser convidado.
E talvez, nesse dia,
o velhinho da calçada
toque a viola sorrindo,
guarde as moedas,
olhe para o céu de Mineirolândia
e diga, com voz firme e mansa:
— Valeu a pena resistir.
Valeu a pena acreditar.
Valeu a pena não desistir do Brasil.




