O quanto as instituições conseguirão controlar o uso político da Inteligência Artificial em um ambiente onde a desinformação circula mais rápido do que qualquer decisão judicial? Alguém tem alguma aposta?
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) criou novas regras para tentar limitar abusos, proibindo, por exemplo, conteúdos manipulados que simulem falas ou imagens falsas de candidatos sem identificação. No papel, a medida é necessária, mas, na prática, o desafio é outro.
O caso do perfil “Dona Maria” ajuda a mostrar exatamente onde está a brecha.
Embora não seja oficialmente vinculado a campanhas, o modelo de conteúdo funciona como peça política indireta. Tem linguagem popular, aparência espontânea e vídeos produzidos com apoio de IA para comentar fatos políticos e atacar adversários sem assumir nenhuma responsabilidade eleitoral.
Pronto, é aí que mora o problema.
A legislação tenta se atualizar para dar conta de regular candidatos e campanhas oficiais, mas a guerra política digital acontece em zonas cinzentas como essas, muitas vezes operadas por apoiadores, influenciadores ou páginas que vivem na fronteira entre humor, opinião e propaganda.
No Ceará, já observamos perfis ligados a grupos políticos, tanto da direita quanto da esquerda, usando cortes manipulados, narrações artificiais e conteúdos feitos para viralizar rapidamente.
Em Fortaleza, nas eleições anteriores, houve episódios de vídeos fora de contexto circulando em grupos políticos como se fossem fatos recentes. Com a IA generativa mais acessível e evoluída, a tendência é que isso aumente, inclusive em cidades do interior, onde a comunicação via WhatsApp tem peso decisivo na formação de opinião.
O problema é que o TSE entra nessa disputa com alguns passos atrás da tecnologia. E não é por incompetência; é porque a lógica da internet mudou. Hoje, um conteúdo falso pode alcançar milhares de pessoas em poucas horas, enquanto a remoção leva tempo e, muitas vezes, acontece depois que o dano já foi causado e depois do pleito já ter sido decidido.
Além disso, como identificar a autoria, o financiamento e a intenção eleitoral em páginas que operam de maneira informal? Como separar sátira, militância e manipulação deliberada? A linha é muito tênue.
Quando a verdade vira apenas mais uma versão disputando espaço no feed, quem perde é a democracia.




