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Professora relata medo de voltar à sala de aula após aluno colocar vidro em copo de água: “Pensei em ir embora”

Em novo depoimento, Michele Ramos diz que já enfrentava crises de ansiedade antes do episódio e afirma que cogita deixar a profissão após o caso

Foto: Reprodução/Instagram

A professora Michele Ramos, da rede municipal de ensino de São José dos Campos (SP), afirmou que ainda avalia se voltará à sala de aula após o episódio em que um aluno colocou um pedaço de vidro em seu copo de água. Em relato ao repórter Filipe Vidon, do jornal O GLOBO, ela disse que o caso agravou o desgaste emocional acumulado desde o início da carreira e que cogita deixar a profissão.

Segundo Michele, os desafios da sala de aula começaram logo nos primeiros anos como docente. Ela conta que enfrentou situações de desrespeito, crises de ansiedade e precisou iniciar tratamento com medicação.

“Comecei a sentir pânico ao sair de casa. Já estava ficando sem dormir. Hoje, estou à base de remédios.”

Ao relembrar o dia do episódio, a professora disse que preparava uma atividade prática quando pediu que um aluno buscasse água. Ao receber o copo de volta, percebeu que havia algo diferente no comportamento da turma.

“Começaram a me falar: ‘Professora, não é muito seguro você beber essa água’. Quando perguntei o que tinham colocado, alguém respondeu: ‘Um vidro’.”

Ela afirmou que procurou imediatamente a direção da escola, solicitou acesso às imagens das câmeras e decidiu registrar um boletim de ocorrência. Depois disso, disse ter sofrido um colapso emocional.

“Comecei a refletir e a chorar. O que eu estava fazendo ali? Pensei: ‘Eu não dou conta, tenho que ir embora daqui’.”

Segundo Michele, um dos estudantes assumiu a autoria do ato antes de ela deixar a escola. A professora afirmou que decidiu registrar o caso para que os envolvidos compreendessem a gravidade da situação.

Após publicar um vídeo nas redes sociais relatando o ocorrido, ela recebeu mensagens de apoio de professores de diferentes estados e disse ter tomado conhecimento de outros episódios de violência contra docentes.

Agora, Michele avalia se retornará às salas de aula. Para ela, o maior desafio é enfrentar novamente o ambiente escolar.

“Meu maior medo é passar mal de novo. Abandonar a sala de aula
é uma opção em que vou pensar.”

A professora também defendeu maior participação das famílias na vida escolar dos estudantes e cobrou políticas públicas voltadas à proteção da saúde mental dos profissionais da educação.

Confira o relato completo feito por Michele:

“Eu sou Michele Ramos, atualmente professora na rede municipal de ensino de São José dos Campos, São Paulo. Me formei em Biologia em 2010 e, a princípio, não fui para a área da educação. Tentei, mas não consegui seguir a carreira acadêmica. Depois, senti um chamado, uma vontade de trabalhar com educação e fazer alguma transformação na sociedade. Fiz a licenciatura, prestei concurso, fui chamada e tinha uma expectativa boa. Mas nada tinha me preparado para o ambiente da sala de aula. A gente estuda um monte de coisas, mas nada te prepara para o turbilhão que é pegar turmas de sexto e nono anos.

Comecei a dar aula em 2020, no ano da pandemia. Fui pegando o jeito aos trancos e barrancos enquanto enfrentava a dura realidade dessas crianças. São elas as situações externas que os alunos passam, a ausência de família e as dificuldades de aprendizado. Um monte de coisas que eu não imaginei que fosse me impactar tanto.

Mesmo assim, dentro da sala, eu tento deixar um clima leve. Gosto de fazer experiências práticas, mas, às vezes, fico receosa e acabo desistindo, porque geralmente são os dias em que eles ficam mais agitados. As crianças se distraem com muita facilidade. O negócio deles é a dopamina o tempo inteiro. Se você pede uma leitura um pouco mais longa, parece que pediu algo absurdo. Eles não têm paciência com o próprio aprendizado, querem escolher o que fazer, não aceitam o método tradicional, e essa revolta acaba caindo sobre mim.

Antes desse episódio mais grave, eu já tinha passado por momentos de estresse e crises de ansiedade devido à falta de comprometimento e à muita bagunça. Sofri desrespeito e xingamentos de alguns estudantes e tive que ouvir coisas de familiares que eu não gostaria. Cheguei a sentir que não estava dando conta. Isso me levou a um estado de medo em que eu tive que me afastar por três ou quatro dias.

O ponto de virada foi em 2022, só dois anos depois de iniciar na profissão. Comecei a sentir pânico ao sair de casa. Já estava ficando sem dormir, ruminando situações de forma excessiva. Não era só um dia difícil; meu cérebro estava sendo constantemente bombardeado. Percebi que estava em um estado de ansiedade muito alto e comecei a tomar medicações. Hoje, estou à base de remédios. Tentei ficar sem, mas no momento só conseguia dar aula medicada.

Essa turma do 8º ano onde o caso aconteceu, eu não avaliava como uma sala diferente ou que desse mais problemas do que outras. O embate era sobre não cumprirem atividades e fazerem bagunça. Nunca havia tido um conflito a ponto de gerar humilhação ou algo mais grave. Da mesma forma, com os três meninos envolvidos, não havia atrito. Eu apenas cobrava as entregas. Foi uma surpresa muito grande essa atitude deles. Tem alunos que eu até esperaria que fizessem algo, mas desse que fez, eu não esperava.

Naquela aula, planejei uma atividade sobre o sistema sanguíneo. Chamei cerca de seis alunos para sentarem bem na minha frente, pois eles não tinham entregado um trabalho há praticamente um mês. Eu estava dando mais uma chance para a nota deles, que estava baixa. Enquanto eles faziam a tarefa, comecei a montar um microscópio na minha mesa. Tirei uma gotinha de sangue e comecei a preparar a lâmina. A primeira e a segunda não deram certo.

Meu copo de água estava vazio, mas tinha uma gotinha no fundo. Usei essa água para limpar as lâminas de vidro que estavam embaçadas. Uma delas quebrou na minha mão, e eu a deixei no cantinho, certa de que ninguém ia mexer ali. Então, pedi para um dos alunos ir buscar água para mim naquele copo. Nesse momento que eu estava focada no microscópio, por uns 30 segundos, perdi a visão da turma.

Depois que o aluno voltou com o copo, o clima estava estranho. Começaram a me falar: ‘Professora, não é muito seguro você beber essa água’. Eu nem imaginei o que era. Pensei: alguém cuspiu? Jogaram um cabelo? Quando perguntei o que tinham colocado, alguém respondeu: ‘Um vidro’.

Perguntei quem tinha sido e eles não falaram. Peguei o copo, fui até a direção, pedi para acessarem a câmera e avisei que faria um boletim de ocorrência. Quando voltei para a sala e falei isso, eles ficaram em silêncio. Nisso, comecei a refletir e a chorar. Eu chorava desesperadamente. O que eu estava fazendo ali? Por que estava passando por isso? Fiquei com um sentimento de desesperança e pensei: ‘Eu não dou conta, tenho que ir embora daqui.’ Entrei em desespero.

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