O Instituto Dr. José Frota (IJF), maior hospital de trauma do Ceará, tem registrado um aumento preocupante no número de mulheres vítimas de violência doméstica atendidas na unidade. Entre janeiro e maio deste ano, 96 mulheres deram entrada no hospital em Fortaleza por ferimentos decorrentes de agressões intrafamiliares, o que representa uma média de 19 casos por mês. O dado chama atenção porque, nos últimos três anos, a média mensal variava entre 11 e 12 vítimas, evidenciando uma escalada da violência no Estado.
O levantamento, solicitado pelo Diário do Nordeste, mostra que as principais vítimas são mulheres jovens, entre 22 e 39 anos, e que os agressores mais frequentes são cônjuges, namorados e ex-companheiros, responsáveis por mais da metade dos casos. Desde 2023, já foram contabilizadas 525 internações por violência intrafamiliar no IJF, das quais 214 são reincidências. Para a coordenadora de Serviço Social do hospital, Pâmela Santos, o aumento também reflete maior confiança das mulheres em denunciar, graças à organização de protocolos específicos e ao preparo da equipe de saúde. “Elas estão denunciando mais, porque a gente está melhor organizado no fluxo”, explica. Ainda assim, ela alerta para a subnotificação, já que muitas vítimas ocultam a agressão relatando acidentes domésticos.
Desde agosto do ano passado, o hospital conta com o Código Lilás, protocolo nacional que busca identificar, acolher e encaminhar vítimas de violência doméstica para a rede de proteção. O atendimento inclui a Sala Lilás, espaço reservado para acolhimento psicossocial, e a notificação imediata à Guarda Municipal e à Delegacia da Mulher. A notificação é obrigatória, mesmo que a vítima não queira registrar a ocorrência, já que se trata de crime de ação pública incondicionada. Após a alta hospitalar, o IJF encaminha as mulheres para serviços de apoio, como a Casa da Mulher Brasileira, o Centro de Referência da Mulher e os Creas, além de acionar programas de proteção em casos mais graves, especialmente quando há risco de feminicídio.
Os impactos da violência vão além das lesões físicas. A psicóloga e professora Juliana Murta ressalta que as vítimas frequentemente desenvolvem depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático e até tentativas de suicídio. Segundo ela, a violência rompe a autonomia das mulheres e exige uma rede de apoio paciente e fortalecida. “A rede precisa dizer: ‘Eu estou aqui, vou te proteger, mas a gente precisa fazer com que você fique viva’”, afirma.
O poder público também reconhece a gravidade da situação. A secretária executiva de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher, Erica Praciano, destaca que os casos de reincidência acendem um alerta importante: “Eles mostram que não basta apenas interromper o episódio da violência, mas que é fundamental garantir proteção contínua, acompanhamento psicossocial, acesso à Justiça e autonomia econômica para as mulheres”. Entre as ações em andamento estão a ampliação das Casas da Mulher Brasileira e Cearense, o fortalecimento das patrulhas Maria da Penha e campanhas permanentes de prevenção.
Já a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social afirma que realiza ações de combate e acolhimento às vítimas diariamente, com iniciativas como o Grupo de Apoio às Vítimas de Violência (Gavv), ligado à Polícia Militar, e o sistema virtual de solicitação de medidas protetivas de urgência.
O cenário exposto pelos números do IJF revela que a violência doméstica contra mulheres no Ceará segue em crescimento e exige respostas rápidas e integradas. Mais do que interromper episódios de agressão, é preciso garantir que as vítimas tenham acesso a proteção contínua, apoio emocional e condições para reconstruir suas vidas com segurança e dignidade.





