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Centrão fica neutro na eleição presidencial e mira fortalecimento no Congresso

Com isso, os demais candidatos ao Palácio do Planalto terão, nesta primeira etapa da disputa, o suporte formal apenas de suas próprias legendas

Foto: Julio Dutra/Republicanos

O encerramento das convenções partidárias, na quarta-feira, 5, definiu um cenário pouco comum para a eleição presidencial de outubro. Entre as maiores siglas do centro e da centro-direita, prevaleceu a decisão de não declarar apoio a nenhum candidato no primeiro turno. A exceção é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que construiu alianças com partidos de esquerda ainda durante a fase de pré-campanha. As informações são da revista Veja.

Com isso, os demais candidatos ao Palácio do Planalto terão, nesta primeira etapa da disputa, o suporte formal apenas de suas próprias legendas.

A escolha de permanecer fora da corrida presidencial envolve partidos com peso significativo no Congresso. União Brasil, PP, Republicanos, MDB, Podemos e PSDB, juntos, representam 43% das cadeiras do Legislativo federal, com 223 deputados e 31 senadores. O grupo também reúne 15 governadores. As seis siglas concentram ainda quase metade dos recursos do Fundo Eleitoral, cerca de R$ 2 bilhões dos R$ 5 bilhões previstos, além de aproximadamente 40% do espaço destinado à propaganda eleitoral no rádio e na televisão.

A ausência dessas legendas da disputa pelo Planalto não significa, porém, que elas tenham reduzido sua importância eleitoral. A prioridade passa a ser a eleição de deputados e senadores, além da preservação de posições nos governos estaduais. Bancadas numerosas garantem influência política, acesso a recursos e maior capacidade de negociação com o futuro governo federal, independentemente de quem vencer a eleição presidencial.

O movimento também representa uma ruptura com o padrão observado em 2022. Naquele ano, apenas o PSD, entre os partidos de médio e grande porte, decidiu não lançar candidato próprio nem integrar uma aliança presidencial no primeiro turno. PP e Republicanos apoiaram Jair Bolsonaro, enquanto MDB, PSDB e Podemos estiveram com Simone Tebet. O União Brasil, por sua vez, apresentou Soraya Thronicke como candidata ao Planalto.

Agora, a situação do PSD é justamente a oposta. A legenda lançou o ex-governador Ronaldo Caiado, mas não conseguiu atrair outras siglas para sua candidatura. O presidente nacional do partido, Gilberto Kassab, acabou integrando a chapa como vice.

Outro caso emblemático é o PSDB. Depois de décadas disputando protagonismo nacional com o PT, o partido ficará sem candidato presidencial pela primeira vez desde a redemocratização. A estratégia é concentrar esforços na recuperação da representação no Congresso, que sofreu forte redução nas últimas eleições.

O MDB também adotou uma postura inédita. Principal partido de oposição durante parte do período da ditadura militar, a legenda não apoiará um candidato à Presidência pela primeira vez em duas décadas. Na convenção partidária, o presidente nacional do MDB, Baleia Rossi, defendeu que a liberdade de escolha pode fortalecer os diretórios estaduais e facilitar alianças de acordo com as circunstâncias de cada região.

A mudança de comportamento está relacionada também à evolução da relação de forças entre o Executivo e o Congresso. No passado, apoiar antecipadamente um candidato à Presidência poderia representar uma aposta em futuros cargos, ministérios e espaço dentro da administração federal. Com o fortalecimento das emendas parlamentares impositivas, entretanto, o Legislativo passou a ter maior controle sobre uma parcela significativa da destinação de recursos públicos.

Os valores envolvidos nas emendas parlamentares vêm crescendo e devem alcançar cerca de R$ 61 bilhões em 2026. Para o cientista político e professor do Insper Leandro Consentino, essa transformação reduziu a necessidade de os partidos se alinharem previamente ao governo federal para garantir recursos.

A liberdade também atende aos interesses dos dirigentes partidários e das lideranças estaduais. A federação União Progressista, formada por União Brasil e PP, confirmou a opção pela neutralidade nacional, preservando a autonomia dos diretórios regionais.

O presidente do PP, Ciro Nogueira, é candidato à reeleição para o Senado pelo Piauí, estado onde Lula aparece com mais de 70% das intenções de voto. Já Antonio Rueda, dirigente nacional do União Brasil, disputará pela primeira vez uma eleição, concorrendo à Câmara dos Deputados pelo Rio de Janeiro. No estado, o União decidiu não apoiar oficialmente nenhum candidato ao governo.

A ausência de uma identidade ideológica rígida também ajuda a explicar a postura dessas legendas. Historicamente, partidos como União Brasil, PP, MDB e Republicanos reúnem grupos políticos com posições distintas e costumam estabelecer alianças conforme as circunstâncias de cada estado.

A polarização nacional dos últimos anos ampliou esse processo. O fortalecimento de lideranças individuais e a perda de influência das direções nacionais fizeram com que as decisões regionais ganhassem ainda mais espaço. Em muitos casos, os diretórios estaduais passaram a definir alianças levando em consideração exclusivamente os interesses e as disputas locais.

A convenção do Republicanos, realizada na terça-feira (4), mostrou essa divisão. Enquanto nove diretórios defendiam apoio a Flávio Bolsonaro e um indicava Lula, outros 17 optaram pela independência. A direção nacional justificou a decisão pela diversidade política existente nos estados e pela necessidade de respeitar os acordos construídos regionalmente.

Além das mudanças na relação entre partidos e Congresso, a falta de alianças também revela a dificuldade dos presidenciáveis de convencer essas grandes siglas. Os candidatos de oposição foram os que mais prolongaram as negociações, mas não conseguiram transformar as conversas em alianças nacionais.

Flávio Bolsonaro chegou a manter expectativa de acordo até os momentos finais. Apesar da proximidade com Lula em algumas pesquisas, a candidatura enfrenta o desgaste provocado pela expectativa de novos desdobramentos relacionados ao caso Banco Master, cenário que aumenta o risco político para partidos que decidissem associar sua imagem à campanha.

Os demais candidatos também encontram dificuldades para ampliar suas alianças. Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos, por exemplo, permanecem abaixo dos dois dígitos nas pesquisas, o que reduz o poder de atração de suas candidaturas sobre grandes partidos.

A decisão coletiva de grandes legendas de não entrar formalmente na disputa presidencial inaugura, portanto, uma configuração diferente daquela observada em eleições anteriores. Embora fatores específicos de cada candidatura tenham contribuído para o resultado, o movimento evidencia principalmente a ampliação do poder do Congresso e a busca dos partidos por maior autonomia.

A estratégia terá impacto direto na campanha. Sem o apoio das grandes siglas, os candidatos terão menos tempo disponível no horário eleitoral gratuito, um recurso que ainda possui peso em uma eleição nacional. A exposição na televisão e no rádio continua sendo utilizada para apresentar candidaturas e estimular o eleitor a procurar informações em outros espaços, como redes sociais, podcasts e plataformas digitais.

Com o fim das convenções e a definição das alianças, o cenário eleitoral passa agora para uma nova etapa. As candidaturas estão formalizadas, os palanques começam a ser organizados e cada campanha terá de encontrar formas próprias de ampliar sua presença junto ao eleitorado em uma disputa marcada por maior autonomia dos partidos e pelo fortalecimento do Congresso.

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