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Eu não sei nada de quase tudo

Em uma reflexão sobre conhecimento, dúvida e humildade, o escritor Kleber Mineiro transforma a célebre ideia socrática do “sei que não sei” em poesia. No texto, o autor questiona a pretensão das certezas absolutas e apresenta o reconhecimento da própria ignorância como um caminho para o aprendizado

Foto: Emmanuel Black/Unsplash

Em uma reflexão sobre conhecimento, dúvida e humildade, o escritor Kleber Mineiro transforma a célebre ideia socrática do “sei que não sei” em poesia. No texto, o autor questiona a pretensão das certezas absolutas e apresenta o reconhecimento da própria ignorância como um caminho para o aprendizado, a liberdade de pensamento e, sobretudo, para uma sabedoria mais consciente dos próprios limites.

Outro dia,
um leitor generoso me disse
que escrevo bonito
porque pareço saber de tudo.

Sorri.

E naquele instante descobri
a dimensão exata da minha sabedoria:

eu não sei nada de quase tudo.

Sei tão pouco
que já não tenho a arrogância
de chamar minhas certezas de verdades.

Aprendi que o mundo é grande demais
para caber numa opinião,
que a vida possui perguntas
que envelhecem conosco
sem jamais aceitarem resposta.

Talvez Sócrates estivesse certo
quando fez da dúvida
uma espécie de inteligência.

Porque o ignorante mais perigoso
não é aquele que não sabe —
é aquele que desconhece
a própria ignorância.

Eu, ao contrário,
cultivo meus desconhecimentos.

Tenho uma biblioteca de perguntas,
um oceano de coisas por compreender
e uma pequena ilha
onde repousam algumas certezas provisórias.

Quanto mais leio,
mais aumentam as margens
daquilo que desconheço.

Quanto mais vivo,
menos me atrevo a dizer
“é assim”.

Prefiro o talvez.

O talvez deixa a janela aberta,
permite que outra ideia entre,
que uma verdade antiga se desarrume,
que o pensamento respire.

E se algum dia eu parecer sábio,
não será porque encontrei
todas as respostas.

Será porque aprendi
a respeitar profundamente
as perguntas.

Por isso,
sem qualquer modéstia —
porque até a modéstia exagerada
pode ser outra forma de vaidade —,
declaro-me candidato
ao posto de mais sábio dos gregos:

não por saber muito,
mas por finalmente compreender
a vastidão do que ignoro.

Sei que não sei.
E quanto mais sei disso,
mais livre fico para aprender.

Talvez a verdadeira sabedoria
comece exatamente aí:

quando o homem deixa de ter vergonha
de dizer “não sei”
e passa a ter vergonha
de fingir que sabe.
akam.

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