Outro dia,
um leitor generoso me disse
que escrevo bonito
porque pareço saber de tudo.
Sorri.
E naquele instante descobri
a dimensão exata da minha sabedoria:
eu não sei nada de quase tudo.
Sei tão pouco
que já não tenho a arrogância
de chamar minhas certezas de verdades.
Aprendi que o mundo é grande demais
para caber numa opinião,
que a vida possui perguntas
que envelhecem conosco
sem jamais aceitarem resposta.
Talvez Sócrates estivesse certo
quando fez da dúvida
uma espécie de inteligência.
Porque o ignorante mais perigoso
não é aquele que não sabe —
é aquele que desconhece
a própria ignorância.
Eu, ao contrário,
cultivo meus desconhecimentos.
Tenho uma biblioteca de perguntas,
um oceano de coisas por compreender
e uma pequena ilha
onde repousam algumas certezas provisórias.
Quanto mais leio,
mais aumentam as margens
daquilo que desconheço.
Quanto mais vivo,
menos me atrevo a dizer
“é assim”.
Prefiro o talvez.
O talvez deixa a janela aberta,
permite que outra ideia entre,
que uma verdade antiga se desarrume,
que o pensamento respire.
E se algum dia eu parecer sábio,
não será porque encontrei
todas as respostas.
Será porque aprendi
a respeitar profundamente
as perguntas.
Por isso,
sem qualquer modéstia —
porque até a modéstia exagerada
pode ser outra forma de vaidade —,
declaro-me candidato
ao posto de mais sábio dos gregos:
não por saber muito,
mas por finalmente compreender
a vastidão do que ignoro.
Sei que não sei.
E quanto mais sei disso,
mais livre fico para aprender.
Talvez a verdadeira sabedoria
comece exatamente aí:
quando o homem deixa de ter vergonha
de dizer “não sei”
e passa a ter vergonha
de fingir que sabe.
akam.






