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O acróstico da urna

As quatro letras contam a mesma história em quatro movimentos: o grito que denuncia, a ponderação do pensamento, a novidade que se abre, o passo que dá seguimento. Já dizia Raul, basta ser sincero e desejar profundo, você será capaz de sacudir o mundo

Em todo domingo de eleição, o Brasil acorda com um som de incomum dimensão. Um sonido especial, que não se ouve em rádio nem se lê em jornal. É o passo de milhões de pessoas rumo a um pequeno gesto que altera planos, dura segundos e decide anos. Há nesse movimento pouco usual o sacro peso de um passado genial. Desde a ágora grega, onde os cidadãos, com solenidade, depositavam seixos em ânforas, até à atualidade, quando a urna eletrônica com um bip confirma a identidade, o ato é sempre o mesmo em substância e materialidade. Alguém faz de uma cabine – de forma anônima, mas pública – uma espécie de vitrine. Insere, em uma urna, um passaporte de poder e indica, sobretudo, em que mundo quer viver.

A palavra, porém, guarda e implica muito mais do que a etimologia indica. URNA: quatro letras em harmonia, como quatro tempos de um mesmo dia. Como quem a um ritmo vai cocriar, vale lê-la devagar. Com alegria, sentir letra por letra, e, à moda de uma melodia, saber que sua principal partitura encerra um modo de ser da democracia. O poeta romântico inglês John Keats cantou: Inviolada noiva de quietude e paz, / Filha do tempo lento e da muda harmonia,/ Silvestre historiadora que em silêncio dás/ Uma lição floral mais doce que a poesia.

U, de uivo. Antes de qualquer agito, a urna escuta um grito. O eleitorado raramente vota por aquilo que ama, conforta e amansa; com frequência vota contra aquilo que o cansa. O uivo da popular insatisfação pode ser o primeiro som da manhã de uma eleição. É o desempregado que faz fila sabendo que nenhuma chapa lhe devolverá o trabalho desejado; é a mãe que leva nas costas a escola que não veio e o problema de saúde que a atingiu em cheio; é a periferia inteira acenando, com o dedo no botão, a sua desconfiança com a demanda sem solução. Os sociólogos chamam isso de demanda represada; pela língua do povo, de cansaço é chamada. A urna é, antes de tudo e recorrendo à elegância, uma espelhada câmara de ressonância. Ali, o silêncio do voto secreto se converte no mais alto dos uivos – alcançando brancos, negros e ruivos.

R, de reflexão. A cabine de votação é um dos raros espaços onde a pressa da alma é convidada a se curvar à majestade da calma. Dentro dela, ninguém argumenta, ninguém convence, ninguém atormenta. São poucos segundos de absoluta solidão, em que o eleitor pode se render a uma reflexão. A reflexão que ali acontece não é a do seminarista, nem a do jurista – é a do homem comum que pesa, medo ou esperança à vista, qual futuro é menos improvável na lista. Votar é um exercício de profética humildade: ninguém acerta o futuro, mas a ele todos têm vinculariedade.

N, de novidade. Toda urna, de longe ou de perto é, al fin y al cabo, um campo aberto. Fogueira sem lenha, ela não sabe o que contém até que contenha. Na urna palpita o sentimento do coração: prenhe de surpresa, pertence ao ainda-não. Ali cabem a continuidade e a ruptura, a consagrada e a desconhecida criatura, a promessa testada e a virgem pura. A novidade, em política, é uma mercadoria rara e perigosa – pode ser o início de uma renovação ou uma máscara ardilosa. Eis o seu doble sustenido: onde há urna, o amanhã não está decidido. Nas tiranias vemos duas certezas: império da violência e ausência de surpresa. Prepondera uma verdade crua: onde ninguém pode ser derrotado, ninguém governa, apenas se perpetua. Com efeito, temos visto que a urna é a institucionalização do imprevisto. É a aposta coletiva de que o próximo capítulo pode ser uma nova jornada, sem que para isso seja preciso derrubar nada.

A, de avanço. E quando a urna se fecha, à tarde, alguma coisa avançou – não necessariamente para o lado que cada um desejou. Ao final, triunfa a própria ideia de seguir avançando, com um povo que consegue resolver suas tensões contando, em vez de sangrando. O avanço da sociedade é combinação de flor e espinho: não se mede apenas pelo resultado, e sim pelo caminho. A história mostrou que fizemos um itinerário correto ao ampliar o voto à mulher, ao analfabeto, ao jovem de dezesseis, ao sem-teto. Correspondeu a uma subida altiva na escada de Jacó da dignidade coletiva. A urna é senhora lenta – se assim me permitem – e seus passos são curtos, pois os recuos existem. Mas é ela que transforma o conflito em diálogo e nos brinda com a correta aposta, cambiando a revolta em agenda e o uivo em proposta.

Urna, ao final, contém o mais químico elemento: uivo e calma, questionamento e resposta, abertura e fechamento. Urna, oh Urna!, tu és um acontecimento fenomenal, receptáculo do uivo social, relâmpago de reflexão genial, incubadora da novidade geral, asa do sonho físico-digital. As quatro letras contam a mesma história em quatro movimentos: o grito que denuncia, a ponderação do pensamento, a novidade que se abre, o passo que dá seguimento. Já dizia Raul, basta ser sincero e desejar profundo, você será capaz de sacudir o mundo. No domingo de eleição, isso pode ocorrer em alguns segundos.

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