Na manhã da sexta-feira, 05, o agricultor Messias Calado, 27, procurou a unidade de saúde da família na comunidade Novo Mundo, em Campo Alegre (a 95 km de Maceió), em busca de um médico. “Eu adoeci com o veneno que coloco na plantação. Estou com febre e enjoo”, disse o paciente, que acabou sendo atendido por uma enfermeira. O motivo? O posto está sem médico.
A unidade e outras quatro no município estão sem médico porque a prefeitura não consegue contratar profissionais. Ao todo, há 19 unidades na cidade.
Nos últimos seis meses, a cobertura do programa Estratégia de Saúde da Família (ESF) vem caindo. Segundo dados do Ministério da Saúde, 3 milhões de pessoas deixaram de contar com assistência entre novembro passado e maio deste ano.
Os médicos cubanos deixaram o Brasil em novembro de 2018, após decisão do governo da ilha caribenha de romper o contrato por conta de declarações de Jair Bolsonaro de que não iria pagar mais valores a Cuba.
Nem mesmo os editais recém-lançados pelo programa Mais Médicos têm conseguido suprir a carência na região, porque parte dos profissionais não estão assumindo as vagas em aberto.
‘Como vou fazer se não tem médico?’
Na comunidade Novo Mundo, a falta de médico causa inúmeros transtornos. “Eu mesma já tive que ir no hospital umas cinco vezes porque aqui não tem médico. Na última vez, disseram que era serviço de posto. Mas como vou fazer se não tem médico?”, questiona Floraci dos Santos, 59, que é hipertensa e trata de osteoporose e colesterol alto.
Seu principal problema é a falta de receita para pegar o remédio controlado para dormir. “Era para eu tomar um por dia, mas tenho poucos, então estou trocando por um chá”, afirma.
Sem médico, a enfermeira Louise Caroline acaba fazendo sozinha atendimentos como pré-natal e casos de hipertensão e diabetes. “Respeito o limite da profissão, mas mesmo assim estou com uma produção bem maior do que o normal, sobrecarregada porque não tem médico. O que posso, resolvo; o que não dá, encaminho ao hospital”, conta, citando que realiza de 300 a 400 atendimentos por mês na unidade.
A secretária da Saúde da cidade, Tamiris dos Santos, afirma que na época dos cubanos conseguia manter todas as equipes da Estratégia de Saúde da Família funcionando e com toda a rede de profissionais (médico, enfermeiro, dentista, agente de saúde e auxiliar de enfermagem).
Ela afirma que muitos profissionais se inscrevem, mas não aparecem para trabalhar. “Fomos contemplados nesse último edital do Mais Médicos para preencher três vagas, mas os profissionais não se apresentaram”, diz.
Na cidade, um médico ganha R$ 13.620 por quatro dias de trabalho ou R$ 15 mil por quatro dias, um deles com jornada estendida até as 19h, ou cinco dias trabalhados.
“Pagamos um salário considerável e compatível com a região, com vencimentos em dia. Mas exigimos o cumprimento de carga horária e metas, o que talvez seja um dos motivos pelos quais muitos não tenham interesse e aceitem a proposta de outro lugares que pagam mais e cobram menos dias”, afirma.
Repórter Ceará com UOL
