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Alimentação e afeição

Como Jesus, partir o pão e abrir os olhos sob uma súbita emoção. Meditar ante a graça de ver o fermento fazendo crescer a massa. Cortar a cebola como quem emoldura um vitral, extasiando-se com suas “escamas de cristal”. Temperar com carinho na mão, reorganizando a flor do coração. Realizar uma mistura de cores para inventar novos sabores. Fazer da jornada da alimentação um generoso exercício de comunhão

Uma lembrança terna que se tornou eterna. Uma humilde senhora que se levantava para saudar a aurora. Normalmente, ao redor das 5h. Habitava o casarão da fazenda Mondubim, que tinha como bandeira um frondoso benjamim. Ali reinava minha avó: Missanta Bonfim. Baixinha e plena de serenidade, exibia o galardão da humildade. Após me dar um beijo, começava sua lida de fazer queijo. Eis que me afeiçoei da cozinha: ela se tornou minha vinha. Escutava um inaudível “venha”, oriundo do fogão à lenha. Sentindo o balanço do vento, embriagava-me com o aroma do alimento.

Com meus tios narrando epopeias locais ao redor da mesa, passei a associar a alimentação à beleza. Aquilo era como uma envolvente liturgia, incensada pelo bálsamo da alegria. A partir e desde então, passei a ver a mesa como espaço de celebração.

De fato, a nutrição guarda fina sintonia com a afeição. A mãe nutre o feto com comida e afeto. O útero é nossa primeira nave espacial; uma espécie de mini catedral. Nele, ainda como embrião, aprendemos a primeira oração. Rezamos sem palavras, vinculados ao ritmo do coração. Lá dentro, no ventre morno e escuro, compomos o primeiro verso puro. A vida começa como quem escuta uma canção: sem decifrar a letra, reconhece a intenção. E é ali que o feto começa a sorrir, sob a forma mais simples e mais profunda: o nutrir.

Assim como a terra que, sem questionar, abre seu ventre para a semente mourejar, a mãe oferece o útero para o gérmen vicejar. É um fenômeno de delicada ciência, que mescla silêncio, umidade e paciência. Depois vem a amamentação, a fase da mais profunda conexão. O leite vai além de uma líquida substância; é o pacto de maior importância. É o momento em que aprendemos o que é confiança e principia a nossa vital aliança. Quando o bebê mama, além do nutriente, recebe o carinho da mão envolvente. É sob a ternura do maternal corpo acolhedor que a criança se inicia no aprendizado da linguagem do amor. Nesse momento, sentimos a tranquilidade essencial e, uma vez adultos, buscamos o indulto de reencontrar essa paz original.

Porém, quando, na vida, estamos feitos, a cozinha pode se transformar no palco dos nossos defeitos. Aquele venerando e precioso espaço se contamina pela pressa, culpa e cansaço. A lúdica mesa fraternal vira um severo tribunal. Nós viramos ilha e a comida vira planilha. Maculamos o emblema e o corpo se retorce como fonte de problema. O prazer muda de lado e nos sentimos culpados.

Para evitar o itinerário do precipício, urge restaurar o caminho do início. Retomar o ritual da resistência espiritual. Refazer da cozinha, bem coletivo, uma espécie de santuário afetivo. Mudar o jeito de entrar nela. Acender uma invisível vela e recepcionar o eflúvio da verdura entrando pela janela. Preparar uma surpresa palatável ao som de uma música bem agradável.

Como Jesus, partir o pão e abrir os olhos sob uma súbita emoção. Meditar ante a graça de ver o fermento fazendo crescer a massa. Cortar a cebola como quem emoldura um vitral, extasiando-se com suas “escamas de cristal”. Temperar com carinho na mão, reorganizando a flor do coração. Realizar uma mistura de cores para inventar novos sabores. Fazer da jornada da alimentação um generoso exercício de comunhão.

À cozinha olhe como um colo que acolhe. Nela, além de queimar aborrecimentos, sinta a inspiração buscar seus assentos. À cozinha todo merecimento, pois é um lugar de pertencimento e, sobremaneira, de rejuvenescimento. Sua jornada começa no ventre, segue no colo, perpassa a adolescência, aporta na vida adulta e continua sendo o engenho da cana-de-açúcar da sapiência.

Se, n’algum momento, você sentir que algo te espezinha, volte para a cozinha. Entre solenemente, como quem pisa em um altar: nela, você vai se reencontrar.

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