Home Segurança PCC e CV: a face mafiosa do crime organizado

PCC e CV: a face mafiosa do crime organizado

Em menos de 40 anos, o PCC saiu de um grupo de autodefesa em presídios de São Paulo para uma organização mafiosa, como definem especialistas da área

Foto: Reprodução

No começo da década de 1990, integrantes da temida Camorra napolitana, uma das máfias da Itália, estavam no sistema prisional paulista e serviram para influenciar aqueles que se tornariam membros do Primeiro Comando da Capital (PCC). “De alguma forma, o PCC aprendeu a estrutura criminal, o simbolismo, a violência ritual e, sobretudo, a importância da capacidade relacional, ou seja, a capacidade de fazer o sistema. As máfias sem o relacionamento com o poder seriam como o café sem a cafeína e não é possível imaginá-las e pensá-las fora do relacionamento com o poder”, disse o especialista italiano Antonio Nicaso, com mais de 40 livros publicados sobre o tema das organizações mafiosas. As informações são da revista VEJA.

Em menos de 40 anos, o PCC saiu de um grupo de autodefesa em presídios de São Paulo para uma organização mafiosa, como definem especialistas da área. Um deles é o promotor de Justiça do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) Lincoln Gakiya. “Embora não tenhamos conseguido emplacar a legislação Antimáfia no Brasil, já tenho considerado o PCC como a nossa primeira Orcrim de matiz mafiosa”, afirma.

A atuação do PCC no mundo do crime ao longo dos anos mostra como a facção se tornou uma organização do tipo mafiosa. A violência e o medo impostos, por exemplo, em 2006 com diversos ataques e toques de recolher em cidades paulistas ficou no passado para eles. Apesar de ainda existirem crimes bárbaros pontuais, como o assassinato o ex-delegado-geral de São Paulo Ruy Ferraz Fontes, a atuação do PCC é voltada para arrecadação financeira. Hoje, segundo o promotor Gakiya, a movimentação financeira do bando gira em torno de 2 bilhões de dólares, “sendo 80% relativo a comercialização de cocaína para a Europa e 20% relativos ao tráfico interno.”

Para os países europeus, o PCC tem uma “parceria comercial” com a máfia ‘Ndrangheta, originária da Calábria italiana. A cocaína produzida em países vizinhos, como Colômbia, Peru e Bolívia é transportada pelo Brasil (a partir do Mato Grosso, por exemplo) até chegar a algum dos portos mais utilizados para travessia pelo Atlântico (Santos, na Baixada Santista, ou Paranaguá, no Paraná). As relações que visam fortalecimento da organização envolve também alianças com bandos sul-americanos, como o Tren de Aragua, da Venezuela, que forneceu armamento para o PCC em troca de exploração do tráfico e prostituição em Roraima.

“O que é preciso entender é isso: as organizações criminosas usam a violência, porque a violência é o único jeito de se legitimar, mas depois, quando começam a corromper, a infiltrar-se nas instituições, tendem a fazer o que hoje faz a ‘Ndrangheta. Usa a violência apenas quando é necessário, então é muito mais difícil combatê-la”, aponta Antonio Nicaso. Especialistas da área também apontam que o crescimento do crime ocorre justamente na ausência do Estado. Para se ter uma ideia, a estimativa atual é a de que o PCC tenha 40 mil membros em 29 países, Brasil, Argentina, Estados Unidos, Portugal e Japão, por exemplo.

A operação Carbono Oculto, deflagrada em setembro do ano passado, mostrou a força do crime organizado na atuação econômica. O PCC começou a atuar em postos de combustíveis a partir do litoral de São Paulo, em 2010, revelou a investigação. No período, até os dias de hoje, o grupo criminoso chegou a cerca de 300 unidades apenas em território paulista. “Hoje é só a ponta do iceberg”, disse na ocasião o promotor João Paulo Gabriel, do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado de São Paulo (Gaeco), do MP-SP. Integrantes do PCC atuam ainda no mercado financeiro, por meio de fintechs, que servem para lavar dinheiro, padarias, setor hoteleiro, entre outros.

Comando Vermelho: de pequenos delitos ao tráfico de drogas

A organização criminosa Comando Vermelho (CV), originária no anos 1970, iniciou da mesma forma que o PCC anos depois, como forma de autodefesa dentro de presídios a partir de alianças entre criminosos comuns e presos políticos ligados à grupos esquerdistas. Como define a organização InSight Crime, o CV “começou com delitos menores, como assaltos e roubos a bancos, mas nos anos 1980 o grupo entrou para o tráfico de cocaína, trabalhando com cartéis colombianos e assumindo a liderança social em muitos bairros marginalizados do Rio”.

Em um relatório recente da Polícia Federal, há uma cronologia sobre a atuação ao longo dos anos do CV e mostra a boa relação com uma guerrilha sul-americana. “A relação entre o Comando Vermelho e a extinta Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) remonta ao ano de 2001, quando foi registrada a prisão de Luiz Fernando da Costa, conhecido como “Fernandinho Beira-Mar”, por forças militares colombianas.

À época, Beira-Mar exercia a função de “matuto”, termo utilizado no meio criminoso para designar o traficante responsável pela logística de ilícitos entre fornecedores e distribuidores. A captura de Beira-Mar evidenciou a cooperação operacional entre o CV e as FARC, especialmente no que tange ao tráfico de drogas e armamentos. Atualmente, dados de inteligência apontam que o CV mantém vínculos com dissidentes das FARC, principalmente na região amazônica. Essas conexões envolvem o tráfico de cocaína, utilizando rotas fluviais e terrestres que atravessam áreas de difícil fiscalização, como a tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, apontou a PF no documento. O movimento é feito para introduzir drogas no Brasil e também enviá-las para outros países.

Considerado um pouco menor que o PCC, estima-se que o CV tenha em torno de 30 mil membros, o grupo originário do Rio de Janeiro tem alianças também com máfias poderosas, como a ‘Ndrangheta. O comércio de armas de fogo promovido pelo CV na América do Sul caracteriza-se pelo tráfico em pequenas quantidades, informalmente denominado “conta-gotas” ou “formiguinha”. As armas, muitas vezes desmontadas, entram no país em partes, dificultando a fiscalização, segundo relatou a apuração da PF.

Dados levantados apontam um crescimento expressivo nas apreensões de fuzis: aumento de 28,6% em2022 em relação a 2021; 32,9% em 2023 comparado a 2022; crescimento de 12,8% em 2024 em relação a 2023; e, até o momento, há registro da apreensão de 1396 fuzis no Brasil em 2025. Cerca de 37% das apreensões ocorreram no RJ, liderando o ranking nacional. Grande parte dos fuzis apreendidos apresenta indícios de montagem no Paraguai, a partir de peças avulsas que replicam modelos da fabricante americana Colt.

Em abril do ano passado, a Polícia Civil do Rio, em uma das fases da Operação Contenção, desvendou um esquema que movimentou ao menos 6 bilhões de reais em lavagem de dinheiro envolvendo o Comando Vermelho e também o PCC. As duas maiores organizações criminosas se uniram para operar movimentação de dinheiro oriundo do tráfico. Até mesmo um banco foi criado para transferência do dinheiro. O modus operandi do CV também se assemelha, aos poucos, com atuação mafiosa, diante da linha investigativa da Polícia Federal.

“A sofisticada estrutura de lavagem de dinheiro identificada ao longo desta informação demonstra que o CV domina mecanismos cada vez mais discretos, com uso crescente de empresas de fachada, atividades comerciais aparentemente lícitas e circulação financeira pulverizada. Esse cenário reforça a importância de investigações patrimoniais robustas e integração entre órgãos de controle. Enfrentar a facção no campo financeiro é estratégico para enfraquecer sua capacidade de reinvestir em suas operações”, informou a PF às autoridades públicas.

Deixe seu comentário:

Please enter your comment!
Please enter your name here