Após sete meses de investigação, mais de quatro mil páginas produzidas e uma série de depoimentos que escancararam um possível esquema bilionário envolvendo aposentados, a CPMI do INSS terminou como tantos outros capítulos da política brasileira: sem relatório final aprovado, sem conclusão oficial e com um gosto amargo de impunidade.
O relatório apresentado pelo deputado Alfredo Gaspar, que sugeria o indiciamento de mais de duzentas pessoas por crimes como corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa, foi derrotado por 19 votos a 12. Já o relatório alternativo sequer foi levado à votação. No fim das contas, nada foi oficialmente estabelecido, ninguém foi formalmente responsabilizado e o país assiste a mais um escândalo se dissolver no campo da disputa política.
O que se viu não foi um fracasso por falta de provas ou de investigação, mas uma decisão política. De um lado, acusações que atingem figuras ligadas ao governo. Do outro, tentativas de direcionar responsabilidades à oposição. No meio desse embate, a verdade acabou soterrada pelos interesses. A comissão, que deveria servir à sociedade, transformou-se em palco de disputa ideológica, onde o objetivo deixou de ser esclarecer os fatos para proteger aliados e desgastar adversários. Quando isso acontece, o desfecho é previsível: ninguém paga pelo que foi feito.
Esse episódio segue um padrão antigo e já conhecido do brasileiro. Ao longo dos anos, diversas comissões parlamentares de inquérito começaram com grande expectativa e terminaram sem consequências proporcionais à gravidade dos fatos. A CPI dos Correios revelou o escândalo do Mensalão, mas muitos desdobramentos perderam força ao longo do tempo. A CPI da Petrobras, no contexto da Lava Jato, também enfrentou momentos de esvaziamento político. A CPI da Covid produziu um relatório robusto, com indiciamentos graves, mas até hoje não gerou os efeitos concretos que a população esperava. Em diferentes níveis, inclusive nos estados e municípios, o roteiro se repete: investiga-se, cria-se expectativa, o debate se politiza e, ao final, quase nada acontece.
Enquanto isso, a conta nunca deixa de chegar. E ela não chega para os culpados, mas para o cidadão comum. Chega na forma de impostos elevados, de serviços públicos deficientes, de insegurança e, principalmente, de descrença nas instituições. No caso do INSS, a situação é ainda mais revoltante, porque envolve recursos que deveriam garantir dignidade a aposentados, muitos deles dependentes exclusivamente desse benefício para sobreviver.
Diante desse cenário, a pergunta que precisa ser feita vai além de quem cometeu os crimes. É preciso questionar quem impede que haja punição. O Brasil já demonstrou que tem capacidade de investigar, de expor esquemas complexos e de produzir provas. O que falta é a capacidade de transformar essas descobertas em responsabilização efetiva. O problema deixou de ser a ausência de apuração e passou a ser a existência de mecanismos que protegem aqueles que deveriam responder por seus atos.
O país não precisa de mais comissões que terminam sem resultado. Precisa de consequência. Precisa de um sistema que funcione não para blindar interesses, mas para garantir justiça. Sem pressão da sociedade, sem cobrança firme e contínua, esse ciclo tende a se repetir indefinidamente, alimentando a sensação de que, no Brasil, grandes escândalos sempre acabam da mesma forma.
Ou a sociedade brasileira reage, cobra, se posiciona e exige mudanças, ou continuará assistindo, de forma passiva, a episódios que começam com indignação e terminam em esquecimento. Porque, do jeito que está, a impunidade não é exceção. Ela já virou regra.




