Com o passar do tempo, o envelhecimento costuma ser associado a perdas, limitações e despedidas. Mas, na contramão dessa visão, o poema “Envelheci sem fazer barulho”, de Kleber Mineiro, propõe uma reflexão sensível e madura sobre o ato de envelhecer. Sem dramatizações, o autor transforma o tempo em aliado e apresenta o amadurecimento como um processo silencioso, contínuo e cheio de significado, onde o corpo muda, mas a essência permanece intacta.
Envelheci distraído.
Sem aviso prévio,
sem sirene,
sem cerimônia.
Enquanto eu fazia planos,
o corpo foi fazendo acordos
com o tempo.
Não houve rompimento.
Houve negociação.
Troquei pressa por permanência,
ímpeto por consciência,
força bruta por inteligência aplicada.
Um dia eu corria.
No outro, eu seguia.
E seguir, aprendi depois,
é uma forma sofisticada de continuar.
O espelho não me surpreendeu —
me apresentou.
Disse:
“Esse aí não chegou agora.
Ele vem sendo.”
As mãos ficaram mais sábias,
o rosto virou mapa,
e o corpo, que não me traiu,
apenas mudou o idioma.
Antes gritava.
Hoje conversa.
Desacelerei sem frear.
Cuido mais porque sinto mais.
Não perdi dignidade,
ganhei vocabulário.
Envelhecer assim
é não lutar contra o tempo,
é dançar com ele —
sem coreografia,
mas com elegância.
O corpo amadurece,
a mente ainda provoca,
o olhar segue curioso
e o coração…
ah, o coração continua aceitando convites.
Envelhecer, afinal,
é mudar de forma
sem mudar de alma.
akam.
Por Kleber Mineiro
