perguntaram ao poeta
se ele tinha medo da morte.
ele sorriu triste,
desenhou um silêncio no ar
e respondeu sem rodeios:
— medo não.
o que eu tenho é pena.
pena de ter que ir embora
quando a vida ainda me chama pelo nome,
pena de largar a mesa posta,
as conversas acesas,
os afetos que ainda pedem mais um gole.
a morte, para ele,
não era ameaça —
era interrupção.
era o livro fechado no melhor capítulo,
a luz apagada na cena mais bonita,
o corte brusco da própria voz
quando ela ainda queria cantar.
e a dor dos que ficam…
ah, essa não cabe na gramática.
é uma dor que não aceita nome,
que se deita no peito,
que ocupa a casa inteira,
que faz eco no corredor
e dorme na ausência de um abraço.
por isso o poeta dizia
que precisa haver um depois,
um after,
uma continuidade possível,
uma sobrevivência invisível
no coração de alguém.
porque se tudo terminasse no nada,
se não deixássemos nenhum rastro,
nenhuma história,
nenhum perfume de lembrança —
então qual seria o sentido
de ter vivido?
o poeta lamenta morrer
porque viveu bonito.
porque amou, marcou,
tocou, transformou.
e quem vive assim
nunca quer despedidas apressadas.
no fundo, ele sabia:
não é o fim que assusta,
é não deixar um depois.
porque quem deixa amor,
memória,
gesto,
presença —
não morre.
apenas muda de lugar.
akam.
Por Kleber Mineiro
