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Menina Benigna, Mártir da Pureza

Sua trajetória nos ensina que a força não reside no músculo ou no mando, mas na capacidade de permanecer fiel à luz mesmo quando as sombras se tornam espessas

Foto: Reprodução/Governo do Ceará

No coração pulsante da Chapada do Araripe, a formosa e aconchegante Santana do Cariri desenha cenários que convidam à excelência da transcendência. Tendo a cordilheira como altar, aquela geografia exuberante – que em priscas eras foi coberta pelo oceano – hoje abre o tórax aos céus e conclama à majestade do silêncio e à dilatação contemplativa.

Nessa ampla e acolhedora incubadora mística foi gestada, em meio a intervalos de poeiras e sol, à beira de uma simples cacimba e sobre a areia da inocência, uma alma pouco afeita ao mundo material, mas profundamente sintonizada com o universo espiritual. Batizada com um nome bendito: Benigna. Sua Via Crucis, do latim “Caminho da Cruz”, ganhou a esfera pública.

Era uma tarde de segunda-feira. O calendário indicava vinte e quatro de outubro de mil, novecentos quarenta e um. Nove dias antes a menina Benigna Cardoso da Silva havia completado 13 anos. Como costumeiramente fazia, percorreu a trilha que se encerrava no poço em que recolhia a água para o uso doméstico.

Fazia algum tempo que Benigna era assediada sexualmente por um jovem vizinho, de nome Raul Alves Ribeiro e que contava 17 anos. À espreita sob a vegetação, Raul surpreendeu Benigna e tentou satisfazer a lascívia. Ante a resistência da jovem, Raul resolveu protagonizar uma cena digna de um filme de terror: sacou de um facão que trazia consigo e a golpeou várias vezes. O primeiro amputou três dedos da mão direita da menina, donde se deduz que ela ainda esboçou um gesto instintivo de defesa. O segundo atingiu a testa; o terceiro, os rins; e o quarto e fatal, no pescoço, que praticamente a degolou.

O crime comoveu a comuna! O choque trágico fez repicar um sino mágico. Aquela gritante injustiça provocou uma iça. Um solene sentimento se somou à liturgia do vento. O martírio fez história e elevou a humilde menina aos píncaros da glória!

O sacerdote Cristiano Coelho Rodrigues, pároco de Santana do Cariri à época dessas desairosas ocorrências e que fora guia espiritual da jovem, fez uma anotação profética para a posteridade. Registrou ao lado dos assentos de batismo de Benigna: “Morreu martirizada, às 4 horas da tarde, no dia 24 de outubro de 1941, no sítio Oiti. Heroína da Castidade, que sua santa alma converta a freguesia e sirva de proteção às crianças e às famílias da Paróquia. São os votos que faço à nossa santinha.”

Via de regra, associamos a santidade ou perfeição espiritual a uma longa jornada de ascese e renúncia. Porém, seres há que desafiam essa lógica. Nesses, a santidade se manifesta como uma essência primária, uma plenitude de ser que não carece de tempo para maturar. É o caso dos chamados santos ou santas crianças, como Santa Maria Goretti, São Domingos Sávio e Santa Teresinha do Menino Jesus. Passa a compor essa plêiade sagrada a nossa heroína da castidade Benigna Cardoso da Silva.

Sua trajetória nos ensina que a força não reside no músculo ou no mando, mas na capacidade de permanecer fiel à luz mesmo quando as sombras se tornam espessas. Seu sangue se uniu à terra em poderosa oração e se transformou no orvalho que fertilizou a devoção. Um enorme e agregador Santuário foi erigido como seu estuário. Em homenagem à integridade feminina e em louvor a uma existência digna, louvemos a santa Menina Benigna!

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