Em meio às transformações urbanas e ao ritmo acelerado da vida moderna, Quixeramobim guarda em seu coração marcas profundas de sua história. Entre elas, a Capela de Sant’Ana se destaca não apenas como um símbolo religioso, mas como um verdadeiro patrimônio cultural e afetivo da cidade. No entanto, o que deveria ser motivo de orgulho coletivo hoje se encontra envolto em um cenário de abandono que inquieta e entristece.
A capela carrega consigo um legado de grande relevância histórica. Sua construção está diretamente ligada a Francisco de Assis Bezerra de Menezes, figura de destaque no desenvolvimento do município durante o período imperial. Atuando como juiz municipal e de órfãos, Assis Bezerra contribuiu significativamente para a organização jurídica e social da região, promovendo justiça e amparo aos mais vulneráveis. Como expressão de fé e homenagem à sua mãe, Ana Bezerra de Menezes, ergueu a Capela de Sant’Ana, um gesto que transcende o religioso e se inscreve na memória cultural da cidade.
Ao longo dos anos, a capelinha tornou-se um marco histórico, testemunha silenciosa de gerações. No entanto, hoje, encontra-se sufocada por construções ao seu redor e marcada por sinais evidentes de deterioração. O abandono do espaço não representa apenas o desgaste físico de uma edificação antiga, mas um desrespeito à memória de quem ajudou a construir a identidade de Quixeramobim.
A população, atenta, manifesta sua indignação. Nas redes sociais, multiplicam-se comentários que refletem um sentimento coletivo de descaso, como o de que há “quanto desprezo por um local que, além de lindo, é histórico”. Há também questionamentos sobre responsabilidades e prioridades. Sabe-se que eventos religiosos movimentam recursos significativos, enquanto o poder público contribui com infraestrutura e logística. Ainda assim, a ausência de ações concretas de restauração permanece sem explicação convincente.
É importante destacar que a preservação de um patrimônio como a Capela de Sant’Ana não deve recair sobre um único agente. Trata-se de uma responsabilidade compartilhada entre a Igreja, o poder público e a sociedade civil. Experiências em outras cidades mostram que, quando há prioridade e mobilização, projetos de restauração podem ser viabilizados com apoio comunitário, parcerias institucionais e incentivo à cultura.
Mais do que recuperar paredes e estruturas, restaurar a capela é resgatar parte da alma de Quixeramobim. É manter viva a história de seus personagens, fortalecer a identidade cultural e oferecer às futuras gerações a oportunidade de conhecer e valorizar suas raízes.
Nesse contexto, vale destacar o importante papel da Sertão TV, que já realizou um documentário esclarecedor sobre a Capela de Sant’Ana, contribuindo para o resgate histórico, a valorização cultural e o despertar da consciência coletiva sobre a necessidade urgente de preservação desse patrimônio.
Há, inclusive, possibilidades que vão além da restauração física. A capela poderia abrigar um museu sacro, um espaço de memória e visitação, integrando turismo, educação e cultura. Uma iniciativa assim não apenas preservaria o patrimônio, mas também o reinseriria de forma ativa na vida da cidade.
O alerta está dado. A Capela de Sant’Ana não pode ser esquecida. O tempo, implacável, continua avançando e, com ele, o risco de perdermos um pedaço importante da nossa história.
Que este cenário desperte consciência, responsabilidade e, sobretudo, ação.




