Uma sequência de derrotas do governo no Congresso, somada ao aumento da desaprovação em pesquisas, tem exposto fragilidades na atuação de ministros considerados centrais na gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Entre os episódios mais recentes estão a rejeição inédita de uma indicação ao Supremo Tribunal Federal e a derrubada de veto ao projeto da dosimetria penal. A informação é da jornalista Letícia Pille, do O GLOBO, com colaboração de Victoria Azevedo e Fábio Graner.
Nos bastidores do Palácio do Planalto, interlocutores avaliam que o cenário coloca em xeque o desempenho de nomes como Sidônio Palmeira, José Guimarães, Wellington César Lima e Silva e Jorge Messias, cuja indicação ao STF foi barrada pelo Senado.
Após a rejeição, integrantes do governo consideram difícil a permanência de Messias no comando da Advocacia-Geral da União. A avaliação é que o revés comprometeu sua capacidade de articulação política, especialmente junto ao Judiciário e ao Legislativo. O próprio ministro, segundo relatos, não demonstraria interesse em seguir no cargo. Ele não comentou o assunto.
Entre as possibilidades discutidas está uma eventual transferência para o Ministério da Justiça, atualmente chefiado por Lima e Silva, que assumiu a pasta após a saída de Ricardo Lewandowski. A área de segurança pública, aliás, é vista como um dos principais desafios do governo, tanto pela dificuldade de apresentar resultados quanto pelo peso no debate eleitoral.
Aliados apontam que a atual gestão da Justiça ainda não conseguiu protagonizar pautas consideradas estratégicas, como o combate à misoginia, ao feminicídio e às organizações criminosas. Ao mesmo tempo, propostas importantes seguem travadas, como a PEC da Segurança Pública no Senado, enquanto o projeto antifacção acabou desidratado no Congresso.
Apesar das críticas, auxiliares afirmam que não há, até agora, sinalização clara do presidente sobre mudanças na equipe. A leitura é que Lula mantém cobranças por resultados, mas ainda sustenta apoio aos ministros. No entorno de Lima e Silva, a avaliação é que as especulações sobre trocas estão mais ligadas à situação de Messias do que a uma insatisfação direta com a condução da pasta. Ainda assim, há reconhecimento de que ajustes são necessários, sobretudo na comunicação das ações.
Esse diagnóstico se estende à Secretaria de Comunicação Social. A atuação de Sidônio Palmeira tem sido alvo de desgaste dentro do governo e do PT, com críticas à dificuldade de transformar iniciativas em ganho político. Nas redes sociais, aliados avaliam que o governo tem reagido mais do que pautado o debate.
Episódios recentes são citados como exemplos de falhas na estratégia digital, como a repercussão negativa de um vídeo envolvendo o presidente e a primeira-dama Rosângela Silva durante o almoço de Páscoa.
Durante o 8º Congresso do PT, realizado no fim de abril, propostas para melhorar a comunicação foram apresentadas, mas consideradas insuficientes por participantes, que apontaram falta de ferramentas mais eficazes para o embate digital. Parlamentares também criticaram a forma como as ações do governo vêm sendo divulgadas. Sidônio não comentou.
O ambiente de pressão ocorre em meio ao avanço do calendário eleitoral. Levantamentos recentes indicam redução na vantagem de Lula e crescimento de nomes da oposição, como o senador Flávio Bolsonaro, além de aumento na rejeição ao presidente.
Para aliados, esse cenário intensifica a cobrança por resultados e diminui a margem de erro do governo, especialmente em votações importantes no Congresso.
Diante disso, o Planalto aposta em pautas com maior apelo popular, como a proposta de fim da escala de trabalho 6×1, na tentativa de melhorar a percepção pública. A estratégia depende, em grande parte, da articulação política conduzida por Guimarães, que assumiu a função após a saída de Gleisi Hoffmann.
Considerado um nome com bom trânsito no Congresso, inclusive entre lideranças como Hugo Motta e Davi Alcolumbre, Guimarães ainda enfrenta o desgaste de não ter conseguido viabilizar a aprovação de Messias ao STF. Aliados ponderam, porém, que ele assumiu o cargo em um contexto adverso e sem tempo suficiente para reverter resistências.
