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Lei Áurea flor centáurea

A abolição – esse é o recado - foi um ponto final no parágrafo errado. O texto verdadeiro — o da igualdade substantiva, o da reparação concreta, o da plena dignidade — continua inacabado, esperando por mãos que queiram escrevê-lo com seriedade

I.

Era 13 de maio de 1888, um domingo de sol e mel, quando a caneta da princesa tocou o papel. Dizem que chovia no Rio — dessas chuvas finas que lavam almas e corações – e que chegou até ao fundo dos porões. Isabel escreveu seu nome sobre séculos de ferro e aço e achou que aquilo bastava para o País mudar o passo. A multidão encheu as ruas, fogos cortaram o céu, e o Brasil inteiro aplaudiu o efeito daquela assinatura no nobre papel.

Mas o escravo libertado — sem terra, sem escola, sem sobrenome, sem direito a nada além do ar que respirava — olhou para os lados e viu que uma corrente invisível ainda o apertava. A liberdade lhe fora dada como se dá um presente a um pedinte invisível ou ausente. E ele, que carregara o país nas costas por trezentos anos, amargou como moeda de troca o látego dos desenganos. Recebeu, pelas asas do vento, a rajada feroz do esquecimento.

Abrolhos, abrolhos… o Império fechou os olhos. A República, que chegou logo em seguida, virou o rosto para essa gente sofrida. E o antes escravo continuou sob o tacão do mesmo cravo. A mesma humana criatura amarrada a uma novel ferradura. O negro seguiu caminhando e as mesmas cruéis margens habitando.

II.

Liberdade é palavra que se diz depressa, mas se constrói devagar, com jeito —palavra por palavra, tijolo por tijolo, direito por direito. A assinatura da Lei Áurea, carimbo e vida nos céus de anis, não apagou a senzala que ficou na alma do país. Ela apenas alterou a aparência do conceito: trocou o tronco pela fome, o feitor pelo preconceito. Sob o chicote da indiferença, manteve a injusta e sistemática crença. A corrente deixou de ser de ferro para ser de vidraça — tão transparente que muitos juram inexistir na praça.

O filósofo alemão Hegel escreveu certa vez sobre a dialética do escravo e do senhor: ambos, de modos distintos, tornam-se prisioneiros da relação de dor. O Brasil, ao libertar o escravo sem se libertar da escravidão, condenou-se a carregar para sempre o fantasma da Casa-Grande ou Casarão: esse fenômeno ordinário de medir o valor de um homem pela cor da pele, pelo endereço, pelo salário.
E assim, primos, angustiantemente seguimos.

III.

Hoje, mais de um século depois, abro o jornal e vejo o mesmo fantasma desafiando nossa consciência: nos subempregos, nas filas da saúde, nas estatísticas da violência. O Brasil mudou de vestuário, mas a carcaça continua no mesmo armário. O negro ainda é o primeiro a ser parado na blitz, o último a ser chamado para a entrevista, o que morre mais cedo, o que ganha menos, o primeiro a se perder de vista. É o que ocupa a mais frágil estatística nas nossas cidades e o que menos ocupa cadeiras nos parlamentos, nas diretorias e nas universidades.

A abolição – esse é o recado – foi um ponto final no parágrafo errado. O texto verdadeiro — o da igualdade substantiva, o da reparação concreta, o da plena dignidade — continua inacabado, esperando por mãos que queiram escrevê-lo com seriedade.

A liberdade formal, expressão longeva, é uma promessa bonita que a bruma leva. A justiça social é feita de promessa cumprida — uma dívida que o Brasil, até hoje, insiste em negar guarida. E enquanto não pagarmos, continuaremos sendo um país que dança no salão enquanto o suor e o sangue inocentes se espalham pelo porão. Cecília, a Meireles, que viu da poesia todas as peles, explicou essa contenda: “A liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.”

O difícil nunca foi entender. O difícil é viver.

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