A gestora da Casa de Saberes Cego Aderaldo, em Quixadá, no Sertão Central, Michelle Maciel, denunciou ter sido vítima de racismo após encontrar uma banana presa ao limpador do para-brisa traseiro de seu veículo. O caso foi registrado na Delegacia de Repressão aos Crimes de Intolerância Racial, Religiosa, por Identidade de Gênero ou Orientação Sexual (DECRIN), da Polícia Civil do Ceará.
Segundo o boletim de ocorrência, Michelle, que se autodeclara pessoa preta, relatou que colegas de trabalho visualizaram uma banana em seu carro no dia 3 de junho. Ela afirmou que tomou conhecimento da situação apenas posteriormente, quando chegou para trabalhar na Casa de Saberes Cego Aderaldo, equipamento da Rede Pública de Equipamentos Culturais da Secretaria da Cultura do Ceará (Secult Ceará), gerido em parceria com o Instituto Dragão do Mar (IDM).
Em publicação nas redes sociais, a gestora contou que inicialmente tentou encontrar outras explicações para o ocorrido: “Tentei encontrar outras explicações. Pensei que pudesse ser uma brincadeira de mau gosto, um acaso ou qualquer outra justificativa que afastasse a ideia de que alguém pudesse ter cometido um ato tão violento para me ofender e desestabilizar.”
Michelle afirmou que somente após conversar com amigos passou a compreender o episódio como uma manifestação racista e decidiu não silenciar diante do ocorrido.
“O que aconteceu não é um fato isolado, mas a materialização de pequenas violências e preconceitos que, muitas vezes, acontecem de forma velada. O fato de ocorrer no ambiente de trabalho e estar relacionado ao cargo de gestão que ocupo revela como o racismo estrutural ainda tenta limitar os espaços que pessoas negras podem ocupar.”
Michelle Maciel, gestor da Casa de Saberes Cego Aderaldo
De acordo com o boletim de ocorrência, a gestora relatou ter sofrido abalo emocional, medo, insegurança e humilhação após o episódio. Ela também informou à Polícia Civil que associa o ato à sua cor e ao cargo de gestão que ocupa no equipamento cultural.
No relato publicado nas redes sociais, Michelle destacou ainda as dificuldades enfrentadas para tornar o caso público: “Não foi fácil me posicionar. Existe o medo do constrangimento, de novos ataques, do não acolhimento e da desqualificação. Mas o apoio da minha rede de amigos me deu coragem para denunciar o caso.”
A gestora informou ainda que procurou a presidência do Instituto Dragão do Mar, que a encaminhou ao setor jurídico e aos órgãos competentes. Segundo ela, imagens de câmeras de segurança estão sendo analisadas para auxiliar na identificação do responsável e seguir com o caso “em todas as instâncias necessárias”.
No boletim de ocorrência, Michelle afirma que ainda não foi possível identificar se a banana foi colocada no veículo quando ele estava estacionado em frente à residência dela ou no local de trabalho. O caso segue sob investigação.
Por meio de nota oficial, o Instituto Dragão do Mar manifestou “profundo repúdio” ao episódio relatado pela gestora. A instituição afirmou que recebeu a denúncia com indignação, destacou que o racismo é crime e informou que vem prestando apoio à colaboradora desde que tomou conhecimento do caso.
O IDM também declarou que adotou medidas para encaminhar a ocorrência aos órgãos competentes e que continuará acompanhando as investigações.
“Diante do ocorrido, o IDM acolheu imediatamente a colaboradora e acionou as
medidas cabíveis junto às autoridades competentes, oferecendo o suporte necessário para a responsabilização dos envolvidos. O silêncio não é uma opção diante
da discriminação e da violência, expressamos nossa total solidariedade a
Michelle por sua coragem em denunciar.”
Nota do IDM
Ao final de seu relato, Michelle fez um apelo para que outras pessoas denunciem situações semelhantes, “especialmente às trabalhadoras da cultura”: “Diante de qualquer ato de violência, não se calem. Busquem suas redes de apoio e os instrumentos de defesa para que crimes como esse não sejam naturalizados”, escreveu.




