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A prosa e a poesia no futebol

Futebol é sobre inventar um gesto que ninguém esperava. É sobre transformar um gramado em página em branco e escrever, com os pés, aquilo que as palavras não alcançam. A poesia não está no placar. Está no instante — breve, irrepetível, sublime — em que o jogador põe asas invisíveis e faz a bola aprender a voar

Foto: Divulgação/FIFA

“Há no futebol momentos que são exclusivamente poéticos: trata-se dos momentos de gol. Cada gol é sempre uma invenção, uma subversão do código: cada gol é fatalidade, fulguração, espanto, irreversibilidade. Precisamente como a palavra poética. O artilheiro de um campeonato é sempre o melhor poeta do ano.”

O excerto acima compõe um artigo escrito para jornais italianos como Corriere della Sera (Correio da Serra) e Il Giorno (O Dia), poucos meses após a final da Copa do Mundo de 1970. Lavrado por Píer Paolo Pasolini – um multifacetado intelectual, poeta, cineasta, escritor e pensador italiano nascido no ano de 1922 e falecido em 1975 – o ensaio foi intitulado “II calcio ‘e’ un linguaggio con i suoi poeti e prosatori” (“O futebol é uma linguagem com seus poetas e prosadores”).

Pasolini parte de uma reflexão sobre a linguagem para estabelecer uma tese central: assim como toda língua se articula em subcódigos, o futebol também possui variações que vão do polo puramente instrumental ao expressivo. Há, portanto, um futebol de prosa e um futebol de poesia. O futebol europeu à época da Copa de 70, fundado na retranca, na triangulação e no jogo coletivo organizado, era essencialmente prosaico — baseava-se na execução racional do código, na sintaxe. Em outra frente, o futebol latino-americano, especialmente o brasileiro, era essencialmente poético — centrado no drible e no gol, que são momentos individualistas de invenção e subversão do código. Cada gol, para Pasolini, é “fulguração, espanto, irreversibilidade”, precisamente como a palavra poética.

O autor não estabelece hierarquia de valor entre prosa e poesia, mas distingue-as tecnicamente. A conclusão prática é que, na Copa de 1970, a “prosa estetizante italiana foi batida pela poesia brasileira”. Mais de meio século depois, eis a pergunta: que língua fala o futebol de hoje?

O futebol contemporâneo é um gigante poliglota, mas suas palavras mais ouvidas vêm do dicionário do mercado. O esporte se tornou mercadoria, espetáculo globalizado, produto de prateleira. Os jogadores transformaram-se em “outdoors ambulantes” — o cabelo pintado, a chuteira colorida, a marca estampada no peito que vale mais do que o gol. O drible cedeu lugar ao passe seguro. A invenção foi substituída pela execução do plano. A poesia deu lugar a uma prosa burocrática e eficiente, escrita em planilhas de desempenho e algoritmos de avaliação.

Há quem diga que o futebol de poesia morreu em 1982, na derrota da seleção de Telê Santana para a Itália. Outros juram que ele ainda respira em cada criança que chuta uma lata na rua, em cada pelada de várzea onde a liberdade ainda é a tática principal. Talvez a poesia não tenha morrido — apenas se mudou para as margens, para onde o mercado ainda não chegou com seus contratos e suas cláusulas.

O que Pasolini não poderia prever é que a grande contradição do futebol moderno seria esta: quanto mais globalizado, menos universal. Quanto mais dinheiro circula, menos espaço sobra para a imaginação. O futebol de prosa venceu o campeonato, mas perdeu a alma. As arquibancadas lotadas aplaudem a eficiência, mas suspiram pelo improviso. O torcedor contemporâneo é um decifrador nostálgico: entende perfeitamente o código, mas sente falta da mensagem.

E, no entanto, eis o mistério: o futebol resiste como linguagem porque é, antes de tudo, humano. Enquanto houver um menino com uma bola nos pés e um horizonte vazio pela frente, haverá poesia. Enquanto um gol for capaz de fazer um estádio inteiro esquecer, por três segundos, a dureza do mundo, a prosa será subvertida. O código será quebrado. A língua será reinventada.

Futebol é sobre inventar um gesto que ninguém esperava. É sobre transformar um gramado em página em branco e escrever, com os pés, aquilo que as palavras não alcançam. A poesia não está no placar. Está no instante — breve, irrepetível, sublime — em que o jogador põe asas invisíveis e faz a bola aprender a voar.

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