A beleza de uma sinfonia em quatro movimentos: o primeiro, o dramatismo de uma grande tensão; o segundo, o enlevo solene, sob uma marcha fúnebre augurada por emoção e beleza; o terceiro, uma crispação; o quarto, a combinação de triunfo e magnificência. Eis a Sinfonia n.º 5, de Ludwig van Beethoven, batizada Sinfonia do Destino. Ela abria o programa radiofônico fortalezense “Antenas e Rotativas” e o quadro “Doa a Quem Doer”, pilotados por Cid Sabóia de Carvalho no Grupo Cidade de Comunicação.
Sob o balouço da sinfonia Beethoveniana, Cid Sabóia de Carvalho, que das cotas terrenas se despediu no décimo dia de julho de dois mil e vinte e seis, foi um condor que bateu asas sob a atmosfera da tensão entre combate e contemplação, entre palavra e ação. Saboreou cotidianamente o indecifrável manjar dos guerreiros da paz, o manjar dos imortais.
Pelo augusto pergaminho, soube que o verbo é o princípio de tudo. Por Neruda descobriu que “tudo está na palavra… Uma ideia inteira altera-se porque uma palavra mudou de lugar, ou porque outra se sentou como um reizinho dentro de uma frase que não a esperava, mas que lhe obedeceu…”
De posse do mastro da palavra começou. Marcava doze janeiros quando passou a comentar bailes futebolísticos, a disputa de onze contra onze no polígono de quatro lados à base de grama. Não era pouco: era o menino ciente e consciente que a linguagem constrói realidade, que a palavra dita no ar chegava a quem não lia o jornal, que a crônica desportiva era também crônica social. (Essa intuição nunca o abandonou. Décadas depois, já senador, ainda apresentava programa semanal na Rádio Dragão do Mar. Não porque precisasse. Porque não conseguia viver longe da voz, do diálogo, da possibilidade de falar direto com o povo). Cavaleiro andante e cavalheiro amante da descendência de Calíope, integrou os mais reluzentes sodalícios Alencarinos. Na fundação da Fortalezense de Letras, primeira Academia de Letras do novo milênio, Matusahila Santiago e José Luís Lira outorgaram o martelo presidencial para Cid Sabóia de Carvalho.
Cid descobriu, com o cronos, que o pátio onde a lavra da palavra pode ser mais promissora é a política. Em seus papiros, Papilon já lhe dizia que no labor à pólis podem vicejar os mais belos poemas. Sob a avalanche mudancista que guindou Tasso Jereissati ao comando do Executivo Cearense, em 1986, Carvalho abiscoitou um assento na Câmara Alta da República.
Na Assembleia Nacional Constituinte de 1987, quando o Brasil tentava se refazer das cinzas do obscurantismo, Cid estava lá. Não como figurante. Como relator de matérias que importavam: o sistema financeiro, a tributação, a ordem social. Trabalho árido, técnico, sem glamour. O tipo de trabalho que nenhum poeta gostaria de fazer, mas que todo intelectual honesto sabe que precisa ser feito.
Que sua partida reacenda a tocha da esperança no ressurgimento de uma geração que acredite na comunhão entre prédica e prática, que um homem pode ser poeta e senador sem que um destrua o outro. Que pode denunciar corrupção sem virar mártir, reformar educação sem virar santo, falar na rádio sem virar celebridade.
Cid Sabóia deixa um legado que não cabe em placa de bronze. Deixa a prova de que é possível viver a tensão entre o intelectual e o político sem resolvê-la falsamente, sem fingir que são a mesma coisa. Deixa a lição de que às vezes o mais poético é o mais político. E é possível enxergar o mundo com a emocionada alegria de quem compõe uma sinfonia. Insistir, sem ilusão, que as coisas podem ter solução. Fazer do mundo o conserto com a inspiração de quem toca um concerto.





