13 de setembro é o dia do Agrônomo! É o dia de quem decifra os signos que aformoseiam a agronomia, ciência que, pelo que sei, jardina as leis do campo ou da terra (agro: campo, terra; nomia: lei). Por ser uma excelsa missão, gratulemos quem dela se desincumbe com a nota da paixão. Trata-se de uma radiosa e laboriosa mão. Mão que, ao esquadrinhar a terra, quase nunca erra. Pois é um tipo de esteta que combina os dotes afortunados de um profeta e os arroubos inspirativos de um poeta.
A terra não se cuida sozinha. Alguém a alinha. Toma-a pela mão e faz as perguntas essenciais ao chão. Eis uma extraordinária vocação: a de quem se debruça sobre o cálculo e a observação. Mistura a frieza analítica da ciência com os ponteiros moderados da paciência. Carrega a crença permanente na teimosa latência de uma semente.
A terra, seja várzea ou barranco, não é uma página em branco. Já tem história, composição, drenagem, inclinação. Quando o agrônomo chega, não impõe, mas dialoga e compõe. Abre o calendário e lê a análise de solo como quem lê um prontuário. Identifica deficiências na observação – fósforo, potássio, matéria orgânica – e propõe correção. Não é uma correção qualquer, mas aquela com endosso de fé. É o gesto de quem repara algo que estava desgastado, não por malícia, mas por uso inadequado.
Pensa-se em agricultura e vem uma imagem escorreita: instrumentos, sacos de cereais, colheita. Mas antes do grão há uma decisão. Em especial: se é semeadura direta ou preparo convencional. Segue uma estrutura: correção de solo, manejo de pragas, rotação de cultura. Em cada uma dessas escolhas uma combinação impera, juntando o que a ciência oferece e o que o terreno tolera. O agrônomo é, nesse sentido, um tradutor perfeito: alguém que converte conhecimento em ato, sempre aquecido pelo respeito.
Porque, a mais não poder, é bem fácil esquecer. O pão da manhã, oferenda de amor, vem do trigo que alguém plantou. O arroz, o feijão, o café, em frugalidade de delicadeza, cada um atravessou mãos invisíveis antes de chegar à mesa. O agrônomo, veículo sagrado dessa comunhão, está entre essas mãos. Não é a única liga dessa argamassa, mas é a que cuida para que o elo não se desfaça. Se a semente germina, se a praga não devora, se a água não escassa, há por trás um trabalho que ninguém vê na praça.
Há também a dimensão que do alto se vê: o desmatamento, a degradação, a fronteira que avança sobre o que deveria permanecer. O verdadeiro agrônomo, filho do compromisso, não é ingênuo e sabe bem disso. Conhece a pressão produtiva, a urgência econômica e o relógio que corre em precisão astronômica. Conhece também a resposta do solo exaurido pela compactação, a perda de estrutura e, por conseguinte, a erosão. É por isso que sua função deixou de ser apenas técnica, mas visceralmente profética e, passos à frente, intimamente ética.
O manejo que ele hoje orienta no seu afã determina o que o terreno entregará amanhã.
Em sua nova moldura, a tecnologia mudou a figura. Há drones que mapeiam lavouras, sensores que medem umidade em tempo real, modelos preditivos que antecipam qualquer praga especial. O agrônomo atual, guiado pelo cabedal contemporâneo, lida com ferramentas que seus mestres não imaginavam em seu labor espontâneo. Mas há algo nele que não fenece; sua essência permanece. Nenhum drone substitui o olho treinado que reconhece e clarifica, pois sabe o que o amarelo de uma folha significa. Nenhum software a essa mão substitui, pois ela pega a terra, esfrega entre os dedos, sente a textura e intui. Avalia, com sensibilidade de rosa, se aquela terra está arenosa, se tem estrutura, se está argilosa. A tecnologia amplia e evolui, mas não substitui.
E, sem dedo em riste, há uma simplicidade que resiste. O agrônomo que volta para o escritório com botas sujas de um canteiro é o mesmo que redige um laudo técnico inteiro, orienta um cooperativista, discute com um fazendeiro. Ele é o ponto em que o conhecimento acadêmico toca o chão, às vezes literalmente pega a terra com a mão. O que aprendeu na universidade só vale e encanta se conseguir ser dito na linguagem de quem planta. E essa tradução, do saber formal para a praticidade, é uma forma aberta de generosidade.
Justo e merecido, o Dia do Agrônomo jamais poderia passar despercebido. É um dia como
outro qualquer: o sol se rompe, o campo exibe seu normal vestuário e as plantas não param de crescer porque há comemoração no calendário. Mas, em nome da melhor causa, talvez valha a pausa. Não para celebrar com foguetório de celebridade, mas para reconhecer que há alguém cujo trabalho consiste em cuidar da relação mais antiga da humanidade: a do pé na terra, mão na semente, olho no céu e liberdade!
