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Flávio Leitão, de cérebros e palavras tecelão

Nascido no dia do têxtil, Flávio nos deixou quando setembro chegou. Dessa sua terrena passagem, fica uma indelével imagem. E ela dialoga com o portal da emoção: é a imagem de um tecelão. Tecelão que tecia sílabas e nervos com igual carinho, pois via no cérebro uma espécie de pergaminho

Há quem narre a vida como quem descreve um percurso, um poema ou um conto, construção de pedra com pedra ou de ponto com ponto. Há quem a narre como quem fica a recordar — e nesse gesto de rememorar descobre que certas existências não se somam, mas vêm a se entrelaçar, como orgânicos fios de um mesmo tear.

Foi assim quando à trajetória de Francisco Flávio Leitão de Carvalho fui me achegar, tive a impressão de solenemente estar diante de uma daquelas figuras que o tempo de Fortaleza raramente costuma gerar. O homem em quem a cidade reconhece, sem que ele próprio o solicite, uma síntese de tudo aquilo que ela tem de melhor e que mais a apetece.

Flávio Leitão, esteta varonil, inaugurou sua estada entre nós em um 21 de abril. Era 1939, e na Fortaleza de antanho, o entardecer era bucólico como um pastoreio de rebanho. Donde esse virtuoso varão brotou?! De um poeta e professor e de uma dama que pianista se consagrou. Ambos sabiam passear com bondade pelos campos doirados da sensibilidade.

Dos pais, José Valdivino de Carvalho e Maria Adamir Leitão de Carvalho, herdou o essencial sob o teto: palavra e música, rigor e afeto. Haverá formação mais alta e fina do que conjugar beleza e disciplina?! Emergindo dessa fonte cristalina, Flávio mergulhou no oceano da medicina. Abraçou, com tenacidade litúrgica, a especialidade neurocirúrgica.

Pouca gente acredita, mas há nessa prática bendita algo que guarda parentesco com a escrita. Trabalha-se com uma substância tão complexa quanto a glória, com estruturas cuja lesão pode apagar uma memória, alterar uma personalidade, silenciar uma história. Flávio, que aprendeu a respeitar a fragilidade, dedicou-se a esse ofício com rara meticulosidade, donde extraiu tudo que suscita perplexidade. Fez da cirurgia um diário exercício, humilde e sério, prostando-se diante de um crânio como quem analisa uma gruta de mistério.

Não se contentou apenas em praticar, sentiu que também tinha o dever de ensinar. E Professor foi na Faculdade de Medicina da Federal do Ceará. Sua postura reta, não raro discreta, fê-lo levar à sala de aula a lição correta: o caso vivido, a experiência concreta. Depois da medicina e do magistério, sua outra lavra foi a de agrimensor da palavra.

A literatura cearense logo reconheceu esse descendente de Orfeu. Após fazer da escrita um sagrado ofício, foi recebendo convites para os mais diversos sodalícios. Academia Cearense de Letras, ACEMES, ALANE, AMLEF, Sociedade Brasileira de Bibliófilos e Academia Cearense de Medicina. Quem, no Ceará, frequenta os ambientes de inteligência, sabe de sua intimidade com arte e ciência.

Eu o conheci primeiro na Amlef e dele me aproximei como quem se aconselha com um bom chefe. Depois, me surpreendeu com uma doce emoção: vê-lo em serviço voluntário no Recanto do Sagrado Coração. Encantou-me ali sua faceta preciosa de integridade, que revelava quão oceânica era a dimensão de humanidade desse cidadão que anonimamente distribuía sementes de sensibilidade.

Nascido no dia do têxtil, Flávio nos deixou quando setembro chegou. Dessa sua terrena passagem, fica uma indelével imagem. E ela dialoga com o portal da emoção: é a imagem de um tecelão. Tecelão que tecia sílabas e nervos com igual carinho, pois via no cérebro uma espécie de pergaminho. Operava e ensinava, sob a mesma impulsão inspirativa de quem narrava. Narrava o mistério humano com a reverência de um Faquir: reverência diante da complexidade do existir.

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