Home Júnior Bonfim Agosto Lilás

Agosto Lilás

O corpo da mulher é, há séculos, o lugar onde o mundo deposita suas expectativas, seus medos e, com devastadora frequência, sua inexplicável violência. O Agosto Lilás nasce dessa insuportável constatação. Não é uma campanha de primaveras artificiais nem de peças de ficção

Chegou Agosto de nuance e aos meus olhos desfila um romance. Em Agosto Nos Vemos, obra póstuma (dada a conhecer em 2024) de Gabriel Garcia Márquez. Da prancheta incrível e inconfundível, cantante e fascinante do excelso narrador de Aracataca. Na costa atlântica colombiana gerado e com o Nobel de Literatura honrado.

Em Agosto Nos Vemos traz a descrição, com sílabas de emoção, de um singelo ritual. Ana Magdalena Bach, ou AMB, anualmente e sempre no mês de agosto, subia em uma barca e navegava para a ilha em que o corpo de sua mãe estava enterrado. Havia herdado da genitora “o esplendor dos olhos dourados, a virtude das poucas palavras e a inteligência para controlar seu temperamento”.

À ilha levava flores à sepultura e, no retorno ao hotel, repetia aquilo que Gerardo Mello Mourão chamava de “o ato imemorial de Adão e Eva, o movimento entre as cinturas e as ancas”. O agosto de AMB era um pacto entre memória e desejo: voltar ao lugar da perda e, concomitante a esse gesto, reafirmar que a vida pulsava. O desejo funcionava como contraponto à ausência. O corpo era o único território onde ela podia negociar com a morte.

Mas há outra leitura possível desse gesto, e ela nos interpela com uma urgência que García Márquez talvez não antecipasse. Quando uma mulher precisa viajar até uma ilha para encontrar-se consigo mesma; quando o desejo precisa se isolar do mundo para existir sem culpa; quando o corpo feminino é o único terreno onde se trava a negociação entre presença e ausência — algo mais profundo está sendo dito. O corpo da mulher é, há séculos, o lugar onde o mundo deposita suas expectativas, seus medos e, com devastadora frequência, sua inexplicável violência.

O Agosto Lilás nasce dessa insuportável constatação. Não é uma campanha de primaveras artificiais nem de peças de ficção. É a inscrição de uma cor no mês que já carrega, na obra de Márquez, uma marca severa: a marca do retorno e da espera. E por que Lilás?! Lilás porque, por incrível que pareça, é preciso manchar o tempo para que ele não esqueça. Lilás é a combinação de espiritualidade e meditação. Divina conexão! Representa dignidade e sinceridade, purificação e transformação. Lilás porque os mortos não voltam — como a mãe de Ana não volta, como não voltam as mulheres cujos nomes se acumulam em listas que ninguém quer ler.

Há uma geometria cruel no tempo de Gabriel: o agosto chega sempre, como uma promessa fiel. A vida de Ana se organiza em torno dessa periodicidade — ela sabe que haverá um agosto, e que nele haverá uma essência: flores, mar, desejo e ausência. Mas nas estatísticas de feminicídio, o agosto não é promessa: é a possibilidade real de que uma mulher não veja o próximo. A espera, em vez de ritual de desejo, torna-se suspensão do medo. E o corpo, em vez de território de prazer, veste a cor da denúncia a mais não querer.

Talvez a conexão mais desconfortável entre a ficção e a campanha seja esta aquarela: em ambas, o agosto é o mês em que algo se revela. Na ilha de Márquez, revela-se o desejo que sobrevive à perda. Nas ruas tingidas de lilás, revela-se a violência que sobrevive à indiferença, em um Ceará que ostenta a abjeta tocha de campeão brasileiro de feminicídio. O que muda – oh! Agosto em que vivemos essa agoniação – é o que fazemos com a revelação.

Ana Magdalena Bach continuará, com gosto de agosto, voltando de verdade, presa em uma página de eternidade. Mas o lance é que as mulheres do outro lado do romance — as de músculo e crepúsculo, osso e alvoroço, balística e estatística — não podem esperar que a literatura resolva ou venha revelar o que a sociedade insiste em protelar. O lilás é cor de deleite, mas não é enfeite. É a cor de quem brada com ardência loquaz: até aqui, não mais.

não houve comentários

Deixe seu comentário:

Please enter your comment!
Please enter your name here

Sair da versão mobile