“Quando a raiva dos partidos começa a dividir uma nação, a verdade, sólido interesse dos povos, confunde-se e perde-se na luta porfiada das paixões que então se desencadeiam. Aqueles mesmos que têm a fortuna de lobrigá-la, não poucas vezes são obrigados a calar-se para não serem vítimas da maledicência, da intriga e do ódio. Cada um partido começa a encarar os objetos pela cor das suas paixões; com todo o empenho procura fazer prosélitos e apoiar-se na opinião; apresenta sempre os seus próprios interesses e sentimentos, como interesse e sentimento geral; e, na falta de razões, recorre à impostura.” O texto acima foi publicado há 204 anos no jornal Reverbero Constitucional Fluminense, mais precisamente em março de 1822. Seu autor: Joaquim Gonçalves Ledo, um modesto político e jornalista que combateu os interesses dinásticos portugueses e foi um entusiasta do movimento pela independência do Brasil na intimidade da Loja Maçônica Comércio e Artes.
Gonçalves Ledo esteve por trás do “Dia do Fico”. Viveu sem ambicionar cargos, títulos ou honrarias. Foi um pedreiro livre que erigiu templos à virtude e cavou masmorras ao vício. A história reconhece sua grande importância sendo apontado por pesquisadores, como o grande articulador desse movimento, articulação esta conduzida e feita na intimidade da Loja Comércio e Artes.
20 de agosto se tornou, no Brasil, o Dia do Maçom, porque no vigésimo dia desse augusto mês, no ano libertador de 1822, a Independência do Brasil foi precocemente proclamada sob a aura de um templo maçônico. Em uma sessão conjunta das Lojas “Comércio e Artes”, “União e Tranquilidade” e “Esperança de Niterói”, Gonçalves Ledo, em um enérgico discurso profético, dirigiu-se ao então hesitante Príncipe D. Pedro e instigou: “O Brasil, no meio das nações independentes, e que falam com exemplo de felicidade, não pode conservar-se colonialmente sujeito a uma nação remota e pequena, sem forças para defendê-lo e ainda para conquistá-lo. As nações do Universo têm os olhos sobre nós, brasileiros, e sobre ti, Príncipe! Cumpre aparecer entre elas como rebeldes ou como homens livres e dignos de o ser. Tu já conheces os bens e os males que te esperam e à tua posteridade. Queres ou não queres? Resolve, Senhor!”
As sílabas de fogo proferidas naquela Loja Maçônica impactaram a alma do jovem monarca e o impulsionaram a poucos dias depois, às margens plácidas do Ipiranga soltar o brado retumbante e fazer o sol da liberdade brilhar no céu da pátria naquele instante. Esse é um exemplo de como a história da Maçonaria se confunde com a história da própria modernidade. Ela esteve presente nos bastidores das independências americanas e latino-americanas, na formulação dos direitos do homem, na construção de repúblicas que prometeram — nem sempre cumpriram, mas prometeram — a dignidade como fundamento político.
Os ideais que animam a Ordem são conhecidos: liberdade, igualdade, fraternidade. Não como lemas políticos postos em bandeiras e depois traídos pelos tribunos, mas como princípios existenciais. Vividos antes de serem proclamados, encarnados antes de serem defendidos. Escola iniciática e mística, ela tem na simbologia sua mais afinada melodia. Nela, por exemplo, o esquadro e o compasso não são enfeites. São instrumentos de medição da alma. O esquadro retifica; o compasso circunscreve. Entre a retidão e a abertura, entre o rigor e a amplitude, o maçom aprende a talhar a própria pedra bruta que é — como todos somos — antes de se tornar aquilo que pode vir a ser.
Diz-se que a Maçonaria é secreta. Au contraire, é discreta. Aquela porta discreta (sempre aberta para quem sabe bater, a fachada sem letreiro, o templo que não se anuncia emite a pulsação de um misterioso som antigo, como quem passa diante de um templo cuja liturgia se celebra em língua que não se ouve, mas se intui. Vem daí, talvez, a incompreensão que cerca a Ordem no mundo contemporâneo. Vivemos sob o império da visibilidade: o que não se mostra, não existe; o que não se explica, suspeita-se. Uma instituição que escolhe o silêncio como método, o símbolo como linguagem e o ritual como pedagogia parecerá, inevitavelmente, estranha a quem foi educado para exigir de tudo uma explicação imediata e de todos uma exposição pública.
Esse som clássico – misterioso e imorredouro como tudo que é clássico – alcança toda a existência humana: o que é essencial não precisa gritar para ser ouvido; o que é profundo não precisa se expor para ser real.






