Home 1 Minuto com Sérgio Machado O cálculo que tem esvaziado os debates

O cálculo que tem esvaziado os debates

De seis convidados, sobraram três. Isso não é um detalhe de agenda, é uma escolha. E quem perde é quem assiste. O povo teve que acompanhar um debate praticamente de estranhos ou desconhecidos. Candidatos que estão bem atrás nas pesquisas ganharam visibilidade do público

Foto: Renato Pizzutto/Band

Ontem à noite, a Band abriu o estúdio para seis convidados e só três apareceram: Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante).

Lula (PT) foi o primeiro a recusar, alegando que o formato do debate não dá tempo de resposta quando o candidato é atacado. Isso é verdade. Os blocos cronometrados, com poucos segundos de réplica, são um formato que não muda há décadas e que empurra qualquer um para uma frase de efeito em vez de falar sobre propostas.

Sem Lula no palco, Flávio Bolsonaro (PL) avaliou que se tornaria alvo isolado dos demais candidatos e também desistiu. Romeu Zema (Novo) foi o último a confirmar ausência, horas antes do debate, citando a falta dos dois líderes nas pesquisas como motivo.

Aqui vale separar duas coisas que a cobertura corre o risco de misturar.

Uma é o formato do debate, que de fato está desgastado, engessado, sem fluidez, sempre igual, e isso é um problema estrutural que as emissoras e a Justiça Eleitoral precisam discutir, com blocos temáticos, checagem em tempo real e mais espaço pra resposta completa.

Outra é o cálculo eleitoral de quem decide não aparecer. Quem lidera pesquisa sabe que vai ser criticado de qualquer jeito. Se for, vira alvo de todos ao mesmo tempo. Se faltar, é visto como covardia. A decisão vira uma conta de quem perde menos e de pouco compromisso com quem vai votar.

É justo registrar, como jornalista, o desconforto com o que aconteceu ontem. Um espaço pensado pra aproximar o eleitor de quem quer governar o país ficou com metade das cadeiras vazias.

De seis convidados, sobraram três. Isso não é um detalhe de agenda, é uma escolha. E quem perde é quem assiste. O povo teve que acompanhar um debate praticamente de estranhos ou desconhecidos. Candidatos que estão bem atrás nas pesquisas ganharam visibilidade do público.

Como cobrar depois quem prometeu o quê sobre seca, saúde, crédito rural e segurança se o candidato nunca foi confrontado publicamente sobre isso, sem roteiro pronto e sem filtro de podcast amigável?

Debate não resolve eleição, mas é o único momento em que o eleitor vê, sem edição, como cada um reage sob pressão.

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