O Brasil vive uma transformação profunda em seu perfil demográfico. Dados do Censo Demográfico de 2022 apontam que a taxa de fecundidade do país atingiu o menor nível já registrado, chegando a cerca de 1,6 filho por mulher, número abaixo da taxa de reposição populacional, estimada em 2,1 filhos por mulher.
O índice representa uma queda expressiva quando comparado às últimas décadas. Em 1960, as brasileiras tinham, em média, mais de seis filhos. O número caiu para cerca de 4,4 nos anos 1980, chegou a 2,4 em 2000 e ficou abaixo do nível de reposição a partir da década passada.
A taxa de fecundidade é um indicador demográfico que calcula a quantidade média de filhos que uma mulher terá durante sua vida reprodutiva, considerada entre os 15 e os 49 anos. Além de revelar mudanças no comportamento da população, o indicador também ajuda a compreender tendências relacionadas ao crescimento populacional e ao envelhecimento da sociedade.
Maternidade cada vez mais tardia
Um dos principais reflexos da redução da fecundidade é o adiamento da maternidade. A idade média das brasileiras ao ter filhos chegou a 28,1 anos em 2022, acima dos 26,3 anos registrados em 2000 e dos 26,8 anos observados em 2010.

A mudança também aparece na distribuição dos nascimentos por faixa etária. Em 2010, mulheres entre 20 e 24 anos concentravam a maior taxa de fecundidade. Em 2022, o pico passou para a faixa de 25 a 29 anos, enquanto houve aumento da fecundidade entre mulheres com mais de 30 anos.
Entre as mulheres de 20 a 24 anos, a redução foi significativa. Em 2010, eram registrados 104 nascimentos para cada mil mulheres dessa faixa etária. Em 2022, o número caiu para 75 por mil.
A postergação da maternidade também se reflete no crescimento da proporção de mulheres que chegam ao fim da vida reprodutiva sem ter filhos. Em 2000, 10% das mulheres entre 50 e 59 anos não haviam tido filhos nascidos vivos. O percentual subiu para 12% em 2010 e alcançou 16% em 2022.
Diferenças entre regiões e grupos sociais
A queda da fecundidade atingiu todas as regiões brasileiras, embora existam diferenças entre elas. O Sudeste registrou a menor taxa, com 1,41 filho por mulher, seguido pelo Sul, com 1,50. O Centro-Oeste apresentou média de 1,64, enquanto o Nordeste registrou 1,60. A maior taxa foi observada no Norte, com 1,89 filho por mulher.
Os dados também mostram diferenças entre grupos sociais. Mulheres indígenas apresentaram a maior média, com 2,8 filhos, seguidas pelas pardas, com 1,7, pretas, com 1,6, brancas, com 1,4, e amarelas, com 1,2.
A escolaridade também aparece relacionada ao número de filhos. Mulheres com ensino superior completo tiveram, em média, 1,2 filho, enquanto aquelas com menor escolaridade chegaram a uma média de até dois filhos.
Ceará acompanha tendência de queda e registra taxa de 1,51 filho por mulher
No Ceará, a redução da fecundidade acompanha a tendência observada no restante do país. Dados calculados com base no Censo Demográfico de 2022 mostram que a Taxa de Fecundidade Total no Estado chegou a 1,51 filho por mulher, abaixo dos 2,58 registrados no Censo de 2000.
Os números também revelam uma mudança no perfil da maternidade entre as cearenses. A idade média da fecundidade passou de 27,1 anos, em 2010, para 28,3 anos em 2022, indicando um adiamento cada vez maior da decisão de ter filhos.
O envelhecimento da curva de fecundidade mostra justamente esse deslocamento: uma parcela maior dos filhos passou a ser tida por mulheres em idades mais avançadas, enquanto a participação das faixas etárias mais jovens diminuiu.
Outro dado que chama atenção é o aumento no número de mulheres que chegaram ao fim da vida reprodutiva sem ter filhos. Entre as cearenses de 50 a 59 anos, o percentual passou de 12,4% em 2010 para 17,5% em 2022, uma alta de 5,1 pontos percentuais.
Ao mesmo tempo, o número médio de filhos entre mulheres dessa faixa etária caiu de 3,8 para 2,5 no período. Segundo a análise apresentada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o fenômeno está associado à postergação da maternidade e à redução do desejo de ter filhos.

A mudança também aparece entre diferentes grupos sociais. Entre 2010 e 2022, a idade média da fecundidade aumentou entre mulheres brancas, pretas e pardas no Ceará. Entre as brancas, passou de 27,5 para 29,2 anos; entre as pretas, de 26,8 para 27,8; e entre as pardas, de 27 para 28 anos.
O nível de escolaridade também apresenta relação com o momento da maternidade. Os dados mostram aumento da idade média da fecundidade em praticamente todos os níveis de instrução. Entre mulheres sem instrução ou com ensino fundamental incompleto, a média passou de 26 para 27,3 anos. Já entre aquelas com ensino médio completo ou superior incompleto, avançou de 27,9 para 28,5 anos.
Entre as mulheres com ensino superior completo, a idade média permaneceu em 31,5 anos, indicando uma maternidade mais tardia nesse grupo.
Mudanças sociais e econômicas
A redução da fecundidade no Brasil é um processo observado desde a década de 1970 e está associada a diferentes transformações sociais, econômicas e comportamentais.
Entre os fatores apontados pelas pesquisas estão a urbanização, a industrialização, a maior inserção da mulher no mercado de trabalho e a ampliação do acesso a métodos contraceptivos. O custo de vida nas cidades, mudanças nos valores familiares e um maior controle sobre o planejamento reprodutivo também fazem parte desse cenário.
Segundo o ginecologista e especialista em medicina reprodutiva Edilberto de Araújo Filho, da Associação Brasileira de Reprodução Assistida, a queda da fecundidade está diretamente relacionada a fatores sociais, econômicos e comportamentais.
O adiamento da maternidade, entretanto, também traz desafios relacionados à fertilidade. De acordo com o especialista, a fertilidade feminina começa a declinar naturalmente a partir dos 35 anos, com uma queda mais acentuada após os 40. Ele destaca que técnicas de reprodução assistida podem auxiliar mulheres que enfrentam dificuldades para engravidar, mas alerta que esses procedimentos não revertem os efeitos do tempo sobre a fertilidade.
Um novo cenário demográfico
Com uma taxa inferior ao nível de reposição populacional, o Brasil passa a enfrentar uma nova realidade demográfica. A redução no número de filhos por mulher está relacionada à desaceleração do crescimento populacional e ao envelhecimento progressivo da sociedade brasileira.
No Ceará, os dados seguem na mesma direção e apontam para a continuidade dessa transformação nas próximas décadas. A redução do número de filhos, o aumento da idade média da maternidade e o crescimento da proporção de mulheres sem filhos ao final da vida reprodutiva ajudam a revelar uma mudança profunda no comportamento demográfico da população.
O fenômeno, no entanto, não ocorre de maneira isolada. As pesquisas apontam que as decisões sobre ter filhos estão cada vez mais relacionadas às condições sociais e econômicas, à inserção feminina no mercado de trabalho, ao acesso à informação e ao planejamento familiar.
Em meio à queda histórica da fecundidade, o país observa não apenas famílias menores, mas também uma mudança no momento em que as mulheres decidem ser mães — uma transformação que ajuda a redesenhar o perfil da população brasileira nas próximas gerações.





