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Empresários já doaram R$ 43,4 milhões diretamente a partidos em 2026

O volume já corresponde a mais da metade dos R$ 78 milhões que, naquele momento, haviam entrado diretamente nas campanhas por meio de doações de pessoas físicas

Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Empresários de diferentes setores têm direcionado milhões de reais diretamente aos partidos políticos durante o ano eleitoral, em vez de fazer os repasses às contas de candidatos específicos. Até o dia 24 de agosto, as legendas haviam informado à Justiça Eleitoral o recebimento de R$ 43,4 milhões em recursos privados destinados às atividades partidárias. As informações são da Folha de S.Paulo.

O volume já corresponde a mais da metade dos R$ 78 milhões que, naquele momento, haviam entrado diretamente nas campanhas por meio de doações de pessoas físicas. Os números, no entanto, ainda são provisórios e devem aumentar ao longo do processo eleitoral.

A forma de repasse produz uma diferença importante na identificação dos recursos. Quando o dinheiro é entregue diretamente a uma candidatura, a operação aparece na prestação de contas eleitoral do candidato. Já as contribuições feitas para as legendas são registradas nas contas anuais dos partidos, que seguem calendário próprio de prestação à Justiça Eleitoral.

Em 2026, pelo menos 114 pessoas já transferiram valores superiores a R$ 20 mil para partidos, alcançando, juntas, R$ 24,4 milhões. Desse grupo, 53 fizeram contribuições acima de R$ 100 mil, enquanto seis chegaram à marca de R$ 1 milhão ou mais. Ao menos cinco desses doadores também destinaram recursos diretamente a campanhas.

O movimento ganhou força principalmente durante a pré-campanha. Dos R$ 43,4 milhões informados neste ano, R$ 21,7 milhões foram recebidos pelas siglas entre junho e agosto. As cifras se diferenciam das contribuições menores e recorrentes realizadas ao longo do ano por filiados e militantes.

A comparação com 2025 mostra crescimento nas grandes transferências. No ano passado, quando não houve eleição, pessoas que contribuíram com mais de R$ 20 mil somaram R$ 15,4 milhões. Nenhum doador, naquele período, ultrapassou individualmente R$ 1 milhão.

Um dos partidos que concentrou contribuições de empresários foi o Republicanos. Entre 15 e 30 de junho, 16 pessoas ligadas ao setor sucroenergético enviaram aproximadamente R$ 1,3 milhão ao diretório nacional da legenda.

Entre os doadores estão executivos, conselheiros e integrantes de famílias ligadas a empresas como Cosan, São Martinho, Cocal e Copersucar. São citados, entre eles, Rubens Ometto, integrantes da família Ometto e membros da família Garms. No total, o Republicanos declarou R$ 7,4 milhões recebidos de pessoas físicas.

As quatro empresas afirmaram, por meio de suas assessorias, que os recursos foram doados legalmente pelas pessoas físicas ligadas às companhias, e não pelas próprias empresas.

O Republicanos não apoia candidato à Presidência da República neste ano e disputa governos estaduais em oito estados. Entre seus principais nomes está o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

Até quinta-feira, 27, a campanha de Tarcísio havia recebido R$ 7,8 milhões do diretório nacional do Republicanos e mais R$ 1 milhão da direção estadual, provenientes do fundo partidário. A maior contribuição individual diretamente destinada à campanha foi feita por Fernando de Castro Marques, presidente da União Química.

O responsável pela administração financeira da campanha é Maurício Pozzobon Martins, cunhado de Tarcísio, que já havia exercido a mesma função na eleição de 2022.

Na campanha anterior, alguns financiadores levaram o governador a prestar esclarecimentos. Entre eles estavam Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, do Banco Master, que contribuiu com R$ 2 milhões, e a pecuarista Maribel Golin, com R$ 500 mil. Ela foi mencionada em investigação da Polícia Federal sobre lavagem de dinheiro ligada ao PCC, mas não foi indiciada.

Também no Republicanos, o governador de Mato Grosso, Otaviano Pivetta, repassou R$ 250 mil diretamente à própria campanha. Paralelamente, as contas partidárias registram uma contribuição de R$ 3 milhões em seu nome, maior doação individual registrada até agora para uma legenda em 2026.

Situações semelhantes aparecem em outros partidos. No PT, José Seripieri Filho, fundador da Qualicorp e proprietário da Amil, realizou duas transferências de R$ 1 milhão para o diretório municipal da sigla em Araraquara, no interior paulista.

O município já foi administrado por Edinho Silva, atual presidente nacional do PT e candidato a deputado federal. Seripieri mantém relação de amizade com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Nas contas eleitorais de Edinho, constam R$ 1,1 milhão enviados pelo diretório nacional do PT por meio do fundo eleitoral e outros R$ 19,9 mil repassados pelo diretório municipal. Neste último caso, Seripieri aparece como doador originário. Apesar disso, o empresário não consta na lista de pessoas que fizeram doações diretamente às campanhas divulgada pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Em nota, a assessoria de Seripieri afirmou que “a doação é de caráter estritamente pessoal e está em total conformidade com a legislação eleitoral”. Edinho Silva não respondeu aos questionamentos feitos sobre o caso.

Outro aporte de grande valor ocorreu no MDB. O advogado Fabiano Silveira, que foi ministro durante o governo Michel Temer, transferiu R$ 2 milhões ao diretório estadual da legenda na Paraíba. Seus dados aparecem na relação de doadores disponibilizada pela Justiça Eleitoral.

A destinação dos recursos depende da forma como o partido registra a contribuição. Valores privados podem ser contabilizados para utilização eleitoral ou para o funcionamento regular da legenda. Mesmo os recursos inicialmente destinados à manutenção partidária podem, em determinadas situações, ser empregados em despesas relacionadas ao período eleitoral, incluindo pagamento de dívidas posteriormente.

“É necessária uma autorização da executiva do partido, e essa é uma discussão que sempre ocorre”, explica o advogado Alberto Rollo, professor de direito eleitoral da Escola Paulista de Direito.

Há ainda diferenças importantes entre as fontes públicas de financiamento. Para 2026, o fundo partidário foi estimado em R$ 1,4 bilhão na Lei Orçamentária Anual. Até agosto, as legendas declaravam ter recebido R$ 451 milhões. Esses recursos são repassados mensalmente e podem financiar o funcionamento dos partidos.

O Fundo Especial de Financiamento de Campanha, conhecido como fundo eleitoral, soma R$ 4,96 bilhões e tem utilização exclusiva nas eleições.

Os partidos também podem direcionar recursos do fundo partidário para seus candidatos. Quando isso acontece, a transferência precisa aparecer nas contas eleitorais. Por se tratar de dinheiro público, contudo, não existe uma pessoa física como doadora originária. Essa identificação é exigida quando os recursos privados recebidos pelas legendas são posteriormente enviados às campanhas.

Outra diferença está nos prazos de prestação de contas. Candidatos precisam apresentar as informações financeiras à Justiça Eleitoral até 30 dias depois da eleição. Já as contas anuais das legendas relativas a 2026 poderão ser entregues até 30 de junho de 2027.

Por isso, o retrato atual ainda pode sofrer alterações. A base da Justiça Eleitoral é atualizada à medida que os diretórios partidários registram novas movimentações. Somente entre 15 e 22 de agosto, foram adicionadas 119 doações, no total de R$ 3,1 milhões. Parte delas havia sido realizada meses antes, inclusive em fevereiro.

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