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A doença que adora um “só hoje”

O poema de Kleber Mineiro aborda a obesidade a partir de uma perspectiva pessoal e consciente, destacando os desafios diários enfrentados por quem convive com a doença

Foto: iStock/iStock

O poema de Kleber Mineiro aborda a obesidade a partir de uma perspectiva pessoal e consciente, destacando os desafios diários enfrentados por quem convive com a doença. Com humor e reflexão, o autor fala sobre tentações, recaídas e justificativas que podem comprometer o tratamento, ao mesmo tempo em que rejeita a culpa e o radicalismo. O texto reforça que cuidar do peso vai além da estética: envolve saúde, equilíbrio e a compreensão de que nem toda vontade precisa ser atendida.

Tenho a doença da obesidade.
E dizer isso não me diminui — apenas me torna consciente de que sou um doente em tratamento.

Nesse jogo, não existe partida definitivamente ganha. Há conquistas, recaídas possíveis, dias luminosos e outros em que a geladeira parece desenvolver extraordinário poder de persuasão.

A obesidade é silenciosa em algumas de suas armadilhas. Não costuma chegar sozinha: frequentemente traz pela mão outros riscos à saúde. Por isso, cuidar do peso não é apenas uma questão de espelho, roupa ou vaidade. É, sobretudo, uma negociação permanente com a própria vida.

O problema é que ninguém vive apenas de tabelas, balanças e boas intenções.

Quem passa muito tempo dizendo “não” aos prazeres do prato acaba desenvolvendo uma espécie de advocacia gastronômica interior. E somos excelentes advogados quando o réu é um pedaço de pizza.

“Só hoje.”

“É domingo.”

“Uma vez não engorda.”

“Segunda-feira eu compenso.”

E assim vamos fabricando pequenas absolvições para grandes tentações.

É evidente que viver não pode significar transformar cada garfada em culpa. Comer também é afeto, memória, celebração, encontro. Mas existe uma fronteira delicada entre saborear e se abandonar.

Talvez o verdadeiro tratamento comece justamente nessa consciência: não se trata de nunca mais sentir vontade, mas de aprender que nem toda vontade precisa ser obedecida.

Continuo gostando das coisas boas da mesa. Apenas procuro lembrar que meu corpo também está sentado nela — e será ele quem pagará a conta.

No fim, cuidar da obesidade é um exercício diário de equilíbrio: sem fanatismo, sem culpa, sem desculpas engenhosas demais.

Porque o perigoso “só hoje” tem um defeito curioso:

quando encontra muitos amanhãs, acaba virando todos os dias.
akam.

Escrito por Kleber Mineiro.

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