Desde os primeiros anos de vida, José Alves, morador de Quixeramobim, no Sertão Central do Ceará, já alimentava o desejo de fazer parte de algo grandioso. Ainda criança, ele não tinha definido qual profissão seguiria, mas se interessava pelas grandes instituições de ensino que conhecia por meio da televisão e de documentários. Entre elas estavam o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e a Universidade Harvard, nos Estados Unidos. As informações são do Diário do Nordeste.
Na época, José não sabia exatamente de que maneira poderia chegar a lugares como aqueles. Mesmo assim, manteve a convicção de que um dia conseguiria.
Aos 20 anos, o estudante do curso de Medicina da Universidade Estadual do Ceará (Uece) está mais perto de realizar esse sonho. Em junho de 2027, ele embarcará para os Estados Unidos após ser selecionado para um programa de intercâmbio acadêmico na Harvard Medical School. José está entre os dois brasileiros escolhidos para participar da iniciativa IDOR Ciência Pioneira.
A outra representante brasileira selecionada é a sergipana Liz Vasconcelos, estudante de Licenciatura em Química no Instituto Federal de Sergipe (IFS).
Durante dois meses, os dois jovens participarão de atividades de pesquisa e experiências em laboratórios voltadas à área de medicina regenerativa. A programação será realizada em Boston, onde os estudantes terão contato com a rotina do Discovery Center for Musculoskeletal Recovery, ligado ao Spaulding Rehabilitation Hospital e à Harvard Medical School.
Além da oportunidade acadêmica, o programa oferece aos selecionados passagens, alimentação e hospedagem durante o período do intercâmbio.
Trajetória começou nas olimpíadas científicas
Um dos elementos que contribuíram para a seleção de José foi seu desempenho em competições científicas ao longo da vida escolar. Entre os principais resultados está a medalha de bronze conquistada na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), quando ele estava no segundo ano do Ensino Médio.
A conquista teve importância que foi além da premiação. Por meio do resultado, José passou a integrar o Programa de Iniciação Científica Júnior (PIC Júnior), que oferecia uma bolsa de R$ 300. O estudante utilizava o valor para comprar apostilas e investir na própria preparação acadêmica.
A gerente de Educação do IDOR Ciência Pioneira, Ana Clara Cassanti, explicou que a escolha dos dois estudantes levou em consideração a trajetória acadêmica, o potencial para a pesquisa e a disposição demonstrada para aproveitar uma experiência internacional.
Segundo ela, também foram considerados aspectos como curiosidade científica, iniciativa e comprometimento com a produção de conhecimento.
Professor despertou interesse pela Biologia
Durante a vida escolar, José se destacava pelo interesse em diferentes disciplinas, especialmente Química e Matemática. A curiosidade pelos estudos, porém, ganhou um novo direcionamento ainda no Ensino Médio.
Foi um professor da Escola Estadual de Educação Profissional José Alves da Silveira quem apresentou ao estudante uma nova perspectiva sobre a Biologia. O contato com a disciplina ajudou a despertar o interesse que, posteriormente, contribuiria para a escolha da Medicina como carreira.
Para José, a medalha de bronze da OBMEP continua sendo uma das conquistas mais importantes de sua trajetória estudantil. Além de representar um resultado acadêmico, a premiação abriu portas para que ele tivesse acesso a materiais e oportunidades de iniciação científica.
A possibilidade de cursar Medicina também começou a parecer mais concreta quando a Uece instalou um campus em Quixeramobim, em 2023.
Antes disso, segundo o estudante, fazer a graduação parecia algo muito distante, principalmente pela dificuldade de deixar a cidade para estudar em Fortaleza ou em outro Estado.
“Foi quando a gente começou a achar mais realista, porque para mim seria muito inviável fazer um curso em um local distante, fosse em Fortaleza ou em outro estado. Então, antes não parecia nem uma possibilidade”, relembrou.
Bolsa para Harvard chegou por e-mail
Já na graduação de Medicina, José descobriu a oportunidade oferecida pelo Ciência Pioneira em maio. O primeiro contato aconteceu por meio de um e-mail enviado pela gerente de Educação do programa.
Ele conta que estava na rua quando recebeu a mensagem informando sobre a possibilidade de uma bolsa de pesquisa em Harvard, com financiamento para a experiência internacional.
A primeira reação, segundo o estudante, foi de surpresa diante da dimensão da oportunidade.
“Minha primeira reação foi pensar: ‘meu Deus, isso é real? Porque é muito bom para ser verdade’. Era a oportunidade que sempre sonhei na minha vida”, contou.
José se candidatou ao programa junto com mais de 200 estudantes brasileiros que haviam sido premiados em competições científicas. O processo incluiu o envio de uma carta de intenção e uma entrevista.
Depois das etapas de seleção, veio a confirmação de que ele havia sido escolhido.
A notícia provocou uma reação que o estudante diz ainda ter dificuldade para descrever. Ao receber a aprovação, ele conta que tirou os óculos, colocou as mãos sobre a cabeça e começou a chorar.
“A minha primeira reação foi tirar os óculos, botar a mão na cabeça, começar a chorar e agradecer. Eu não sei explicar em palavras a sensação, mas é muito bom, cara. É uma gratidão, uma felicidade. Parece que nem está acontecendo de verdade”, afirmou.
Para José, a conquista também representa a continuidade de um sonho que poderia ter sido deixado de lado diante das dificuldades encontradas ao longo do caminho.
“A gente vai crescendo e vai tendo noção da realidade, das dificuldades e a gente acaba… não desacreditando, mas deixando o sonho às vezes um pouco de lado. Mas eu nunca deixei de sonhar, eu sempre acreditei que eu ia acontecer”, declarou.
Próximo passo é a pesquisa em Harvard
Atualmente no sexto semestre de Medicina, José já pensa nos caminhos que pretende seguir depois da graduação. O estudante tem interesse em atuar na área de pesquisa relacionada à Neurologia.
Enquanto o embarque para Boston não chega, ele se prepara para a experiência, inclusive com aulas de inglês.
Mais do que aprender novas técnicas laboratoriais, José espera compreender como pesquisadores de referência desenvolvem seus trabalhos e chegam às perguntas que orientam grandes descobertas científicas.
“O que eu espero do programa, em uma palavra, é aprender. Não aprender somente o dia a dia de laboratório, técnicas de ciência, metodologias, que com certeza é muito importante, e é o grande objetivo do programa, mas aprender a forma como aqueles grandes pesquisadores pensam e como eles realizam aqueles grandes feitos, as perguntas que eles fazem”, explicou.
Para o estudante de Quixeramobim, chegar a Harvard não representa o encerramento de uma trajetória, mas uma oportunidade para ampliar aquilo que considera possível alcançar.
“Não vejo Harvard como se fosse um troféu que eu alcancei e pronto. Eu vejo Harvard como se fosse uma oportunidade de eu ver o que é possível de ser alcançado. Não é o ponto final. Eu subi a montanha, mas não para ficar em cima da montanha, e sim para poder ver o horizonte e ver onde eu posso chegar”, concluiu.






