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A brevidade dos importantes

No poema “A brevidade dos importantes”, Kleber Mineiro reflete sobre o caráter passageiro do poder, do prestígio e das relações movidas por conveniência. Com imagens marcantes e tom contemplativo, o autor contrapõe a importância conquistada por cargos e posses à grandeza que nasce do caráter e permanece na memória afetiva das pessoas

Foto: Allec Gomes/Unsplash

No poema “A brevidade dos importantes”, Kleber Mineiro reflete sobre o caráter passageiro do poder, do prestígio e das relações movidas por conveniência. Com imagens marcantes e tom contemplativo, o autor contrapõe a importância conquistada por cargos e posses à grandeza que nasce do caráter e permanece na memória afetiva das pessoas.

Tudo é tudo,
enquanto a vida consente.
Nada é nada,
quando o tempo resolve
retirar os enfeites da importância.

Há quem confunda o cargo com a grandeza,
o prestígio com a virtude,
o aplauso com a admiração
e a cadeira que ocupa
com o tamanho da própria existência.

Ontem, era excelência.
Hoje, uma discreta lembrança.
Ontem, todos o procuravam.
Hoje, até o telefone parece
ter adquirido o dom da surdez.

É fascinante a velocidade
com que certas amizades envelhecem
quando termina o mandato,
desaparece a fortuna
ou se apaga a luz do poder.

Alguns abraços, descobrimos tarde,
não eram manifestações de afeto,
mas investimentos de ocasião.

E certos sorrisos,
por mais generosos que parecessem,
tinham a validade exata
de uma assinatura no contracheque.

Quem foi e já não é
conhece uma curiosa geografia humana:
os caminhos que antes levavam até ele
subitamente desaparecem dos mapas.

Mas existe uma diferença essencial
entre ter sido importante
e ter sido verdadeiramente alguém.

A importância emprestada
termina quando o empréstimo vence.
A grandeza autêntica
não depende de cerimônias,
não precisa de plateia
nem exige tratamento protocolar.

O tempo, esse cavalheiro impiedoso,
não se impressiona com títulos,
não reconhece privilégios
e jamais pede audiência.

Simplesmente passa.
E, passando, separa
o ouro da fantasia,
a essência da aparência,
o homem da cadeira.

Por isso, não me impressiona
quem chegou muito alto.
Interessa-me saber
o que deixou de bonito
quando precisou descer.

Porque há quem tenha sido tudo
e termine não sendo nada.
E há quem nunca tenha sido importante
aos olhos do mundo,
mas se torne eterno
no coração de alguém.

Afinal, quem foi apenas pelo que tinha
deixa de ser quando perde.
Mas quem foi pelo que era
não precisa continuar presente
para jamais deixar de existir.
akam

Kleber Mineiro

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