Sócrates, um amante da sabedoria e da luz que viveu cerca de quinhentos anos antes de Jesus, dizia que “a educação musical é a parte principal da educação, porque o ritmo e a harmonia têm o grande poder de penetrar na alma e tocá-la fortemente, levando com eles a graça e cortejando-a, quando se foi bem-educado.” Segundo o filósofo grego, “para o corpo temos a ginástica e para a alma, a música.” E concluía: “a música deve preceder a ginástica.” (in A República)
Em nossa Pátria, a partir do século XX, como uma fiação que eletrizou, o Carnaval se popularizou. E ganhou o nosso céu de anil, transformando-se na grande festa popular do Brasil. Do ventre de esteira dessa empolgante brincadeira – eureca, caramba! – nasceu o samba! Sim, o samba, esse estilo bacana que herdamos da cultura africana.
No Carnaval, a música é o que explode de maneira mais exponencial. A música, na avenida do Momo, é a alma que apaixona, o motor que impulsiona. É a haste que dita o ritmo da folia. É o estandarte azul da alegria!
As rimas descem tipo fileira, tal qual água de cachoeira. Como olvidar a graça da letra de Chão da Praça: “Eu era menino, menino, um beduíno com ouvido de mercador/ Lá no oriente tem gente com olhar de lança na dança do meu amor/ Tem que dançar a dança que a nossa dor balança o chão da praça.”
O Carnaval, explosiva manifestação, existe para “libertar o coração”. Por isso, que se quer muito mais que o som da marcha lenta, um novo balancê, o Bloco do Prazer. Dentro desse bloco, a gente grita para a mãe que quer ser mandarim, cheirando gasolina, na fina flor do jardim, assim como o carmim, da boca das meninas. Nele, pedimos à amada que venha feito louca, que a vida tá pouca, e queremos muito mais. Mais que a dor que arrebenta, a paixão violenta, oitenta carnavais.
A gasolina, inflamável combustível, é mencionada de forma incrível, em outra letra que instiga o prazer: Periga Ser. Sob o perigo, cabe alertar: alguma coisa quer voar/ periga ser naquela usina/ novas estrelas vão brilhar, Luar luar/ No azul que nunca se imagina.
O azul que nunca se imagina, mais do que uma cor, parece uma sina: é instrumento que nunca desafina. Encontra Jezebel e sobe ao céu. Parece estar em todo lugar: vai até Calcutá. Ai, tricolor colar! Ás de Maracatu no azul de Zanzibar. Nesse meu only you, o bazar da coisa azul chega até Paracuru, que reputo ser o orvalho do norte e o perfume do sul, a flor sem espinho do mandacaru e o desenho espetacular do azul.
O que move uma pessoa a atravessar os sete mares, ir por todos os lugares? É essa dádiva da natureza, que o poeta chama de Coisa Acesa. E, se o sol rompeu, atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu.
Há momentos em que a vida pede reclusão; outros, o extravasamento da emoção. O Carnaval, velho alquimista, pede som, pede corpo, pede pista. Bem por isso, quando passa esse momento, é a música que mantem nossa alma em movimento. Muda a gravidade e eclode a saudade. E a gente fica como um ouvinte, à espera do fevereiro seguinte. Mas… Quando fevereiro chegar, saudade já não mata a gente, a chama continua no ar, o fogo vai deixar semente.
E o título, sob pergunta, volta para mim: o que essas músicas têm a ver com Quixeramobim?! Essas letras que agitam o Carnaval são da lavra de um talento genial: Fausto Nilo. E Quixeramobim é seu torrão natal.




