Os que tivemos o gáudio e a glória, o encanto e o acalanto de abrir os cílios, na estreia da existência, entre o brilho das jitiranas e o perfume dos mufumbos, a vida verdadeira que provém da aroeira, sabemos a alegria e a poesia, bem como a dureza fina que vestem e revestem a vida campesina.
A singular aragem, o aproveitamento da forragem, o vicejar das plantas, o horizonte vigoroso e terno, o estudo silencioso dos sinais de inverno, o elo e o duelo de uma vaquejada, o sincronizado voo da passarada – tudo isso se incorpora à nossa humana aurora quando a campestre atmosfera se nos aflora.
O dia ainda nem abriu os olhos, o campo já respira e a gente se inspira. Há um cheiro que sobe devagar da úmida terra aberta, como café passado na hora certa, que com o verde recém-lavado do orvalho nos desperta. Lá, sem maiores abalos, aprendemos a deitar com as galinhas e levantar com os galos. A carnaúba, como uma bandeira, é nossa imperial palmeira. No ar, o iletrado escritor sem papel rabisca um vigoroso capítulo de um romance antigo que nunca se encerra, que tem como principais personagens o homem e a terra.
Lembro Hugo. Victor Marie Hugo, ou Victor Hugo, gênio indomável, libertador de consciências, ícone do movimento romântico na literatura francesa, ser sintonizado com a luz que desenvolveu uma profunda conexão com a natureza. Nasceu em um 26 de fevereiro, há mais de dois séculos. Impressionante a atualidade de suas falas, suas frases, o alinho do seu poético pergaminho.
“É triste pensar que a natureza fala e que o gênero humano não a ouve”. Eis um dos escritos de sua emoção que encerra uma profunda reflexão. Um libelo à desconexão presente entre a humanidade e o meio ambiente. Esse o imbróglio atual, um dilema paradoxal: avanço tecnológico e destruição ambiental. Hugo nos lembra que a natureza se comunica conosco das formas mais especiais; nós, porém, ignoramos esses sinais.
E eu penso: a terra, além do diletantismo e do contentamento — é ciclo e guarida, é promessa cumprida, é o essencial movimento da própria vida. De uma pequena semente, brota mais que o sustento da gente. Do gérmen escondido, nasce o algodão que vira tecido, surge a alimentação que abastece a nação. Plantio e colheita são como respiração de verdade: inspiram esperança, expiram alteridade.
“Vamos enviar nossos filhos para a cidade!” – vaticinavam, em verdade. Esse era o mantra que ouvíamos dos nossos pais, tios, avós e demais ancestrais. Era como se aquele local amigo, o nosso sacral umbigo, fosse sinônimo de uma espécie de castigo. Nem de longe imaginávamos que o campo, aquele campo, era uma incubadora de prosperidade, um afortunado terreno com infinitas possibilidades.
O agro é um prodígio, uma portentosa melodia, que dialoga com todas as facetas do nosso dia a dia. É dos pastos e das lavouras que vem a nossa refeição. Para os animais, oferece a ração. Do solo, da água e do sol, surge a cana, que faz o etanol.
Belchior bem nos lembrou da emoção causada pela roupa que surge da flor do algodão:
Calça nova de riscado, paletó de linho branco
Que até o mês passado, lá no campo ainda era flor
Sob o meu chapéu quebrado, um sorriso ingênuo e franco
De um rapaz, novo e encantado, com vinte anos de amor
Eis o prodígio do agro: tem uma alma que ensina, um coração que determina. Por isso, tudo germina!




