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A mística de maio

É permeado de uma litúrgica alegria o mês que pertence à figura de Maria. Independentemente da fé, o “mês mariano” exibe uma inaudita solenidade e evoca a imagem da cósmica maternidade. Lembra-nos o útero protetivo e o colo de doçura, em que a aspereza do mundo cede lugar à ternura

Ele é uma clássica melodia que no silêncio principia. Como quem faz um discreto pouso, vestindo a túnica do repouso, ele pede licença e apresenta sua avença. O primeiro dos seus dias é abençoado e marcado, ornado e sacramentado por um feriado. As máquinas param, as ferramentas calam. E a natureza desabrocha em uma inaudita celebração: é o universo iniciando o turno da criação. Eis uma doce quimera, o auge da primavera. E o sino do coração anuncia o ápice da floração.

Se o ano fosse um poema, maio seria o seu luminoso emblema. No hemisfério da alma náutica, a vida irrompe em uma explosão cromática. O ar expurga o peso dos queixumes para receber o bafejo de agradáveis perfumes. As cores de maio, um convite à contemplação, possuem uma nostálgica vibração. O verde se sugere intenso, e o azul do céu parece mais denso. O sol, mesmo ao pingo do meio dia, embora queime, também acaricia. Ficamos com a alma enamorada sob o efeito de uma beleza magnética e desinteressada.

O mês se veste com a indumentária da cultura e se reveste de devoção e brancura. É o mês das noivas, das donzelas em flor, carregando o simbolismo das primícias do amor. Há algo de profundamente esperançoso que se cultua, envolto no véu em que a brisa de maio flutua. O arquétipo da renovação humana se aquece e o desejo de construir algo novo floresce.

É permeado de uma litúrgica alegria o mês que pertence à figura de Maria. Independentemente da fé, o “mês mariano” exibe uma inaudita solenidade e evoca a imagem da cósmica maternidade. Lembra-nos o útero protetivo e o colo de doçura, em que a aspereza do mundo cede lugar à ternura. Maria e as noivas compõem solenes partituras no altar, onde o feminino é celebrado como uma força singular.

Filosoficamente, maio traz uma verdade e nos revela a lição elementar sobre a transitoriedade. Ele é o ápice, mas o ápice é, por definição, o momento que precede o declínio com precisão. Olhar para um jardim em maio é entender que a beleza, dama astuta, não precisa de permanência para ser absoluta. Filha da aurora, ela basta a si mesma no agora. Viver maio é um convite para ativar nosso lado mais humano, desacelerar o passo e observar o desabrochar do cotidiano.

Viver este mês é um exercício de presença. É compreender que, entre o trabalho que nos sustenta e a fé que nos guia, existe o instante — esse sopro de ar fresco que entra pela janela e nos lembra que estamos vivos e cantantes. Maio é, em última análise, um altar erguido ao tempo, um convite para que deixemos de apenas dormitar e comecemos a, verdadeiramente, germinar.

Maio conhece o estatuto do prazer e sabe que a glória é simplesmente ser. É o momento certo, nem cedo nem tarde, que se nos apresenta sem a inconveniência do alarde. Inebria-nos com sua envolvente jovialidade e, em especial, com sua discreta graciosidade. Maio é um encantador verso de luz — que o próprio destino, em flores, produz.

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